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Davos teme calote de dívidas soberanas
Valor Econômico - 28/01/2010 Sergio Leo, de Davos
Fórum: Autoridades e analistas falam em risco de default em alguns Estados americanos e países europeus
A pior fase já passou, mas a crise não foi superada e seus efeitos sobre a atividade econômica permanecerão por mais algum tempo. Essa parece ser a avaliação compartilhada pela maioria dos participantes da 40ª edição do Fórum Econômico Mundial, realizado nesta semana, na Suíça. A certeza de que os negócios no mercado financeiro nunca mais serão os mesmos é outro consenso, assim como o temor de que, a qualquer momento, possam materializar-se riscos que ameaçam deter a recuperação global com nova crise. Uma dos principais ameaças: o calote nas dívidas soberanas.
"Nos próximos anos, veremos alguns defaults", comentou Kenneth Rogoff, professor de economia e políticas públicas da Universidade de Harvard e ex-economista chefe do Fundo Monetário Internacional. Ele chegou a listar a Grécia, a Hungria, a Ucrânia e a Letônia como candidatas ao calote. "O risco de uma crise das dividas soberanas é real", concordou o vice-presidente do Banco do Povo da China, Zhu Min, que participou com Rogoff do painel dedicado à "Próxima Crise Global". Em outro painel, reservado, sobre bolhas especulativas, um executivo chegou a listar grandes Estados americanos, como a Califórnia e o Alabama, entre os possíveis inadimplentes.
Não houve consenso sobre exatamente onde poderá nascer a próxima crise. Além dos ataques que banqueiros, empresários e economistas empreenderam contra o perigo do excesso de intervenção estatal, outro comportamento notável dos quase 2,5 mil participantes do Fórum é a disputa velada entre alguns economistas e investidores do mercado financeiro: os economistas são acusados de excessivamente pessimistas por altos executivos que já identificam, nos mercados, oportunidades de ganhos.
"Há uma série de boas oportunidades nos EUA e no exterior", comentava o diretor-gerente do Carlyle Group, David Rubinstein, que comanda um dos principais grupos de investimento dos Estados Unidos. Ele uniu-se ao coro dos banqueiros que apontam os mercados emergentes, na China, na Índia e na América Latina, como boas oportunidades de negócio.
"Há uma série de tarefas adiadas, a situação está voltando a uma sensação de volta à normalidade nos negócios ('business as usual')", criticou o economista Nouriel Roubini, uma das estrelas do encontro, que lamentou a volta das remunerações "obscenas" aos executivos financeiros.
Roubini é criticado por ter, na edição do ano passado do Fórum, previsto que o mundo ainda estaria em recessão neste ano. É dos poucos a falar em tom preocupado sobe os mercados emergentes, que ele teme estarem ameaçados de bolhas especulativas provocadas pelo excesso de dólares na economia mundial. Ele se disse cautelosamente otimista com esses mercados, mas apontou a permanência de problemas em todos - como no Brasil, onde elogiou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pela política econômica, mas notou a falta de reformas para garantir o aumento dos investimentos.
As incertezas sobre como os governos reagirão à crise, agora que ganharam legitimidade para interferir nos mercados, levou o professor da Universidade de Chicago Raghuram Rajan, também ex-economista-chefe do FMI, a afirmar que a economia "está saindo de um período de incerteza econômica para um período de incerteza política". Uma das incertezas diz respeito à ação das autoridades chinesas para lidar com a crescente ameaça de inflação. Pressionados a admitir a necessidade de desvalorizar a moeda na China, para reduzir seus brutais superávits com o Ocidente, os representantes de bancos chineses defenderam a estabilidade da moeda da China como antídoto para a volatilidade global.
Entre as dezenas de painéis do Fórum, foram comuns as declarações e discursos sobre a inevitabilidade das bolhas especulativas e da necessidade de evitar uma reação excessiva dos governos à ação dos mercados. Mas o Fórum de Davos oficializou o reconhecimento, na comunidade financeira e empresarial de negócios, da necessidade de mudanças radicais.
O tema do encontro é "Repensar, Replanejar e Reconstruir", e os dois chefes de Estado de maior destaque são exatamente alguns dos principais críticos dos rumos da globalização: o presidente Lula, que receberá o prêmio inédito de "Estadista Global", e o francês, Nicolas Sarkozy, que fez o discurso de abertura do Fórum usando um tom duro contra a liberdade do capital financeiro, afirmando que a crença na sabedoria dos mercados fez a globalização "derrapar descontroladamente".
Num discurso incômodo aos participantes que diziam temer a volta de tendências protecionistas, Sarkozy disse que a liberalização é "um meio, não um fim", criticou o crescimento baseado nos mercados externos e reclamou do dumping e da competição desleal criados com a desregulamentação. "Capitalismo puramente financeiro é uma distorção", discursou ele, defendendo até a mudança dos padrões estatísticos usados para medir progresso dos países, para incluir o bem-estar, e não os critérios de mercado.
Como já se previa nas vésperas da reunião, o Fórum tornou-se local para um debate ativo sobre os limites da intervenção estatal, com discussão generalizada sobre as medidas unilaterais tomadas contra os bancos por governos como o dos Estados Unidos. Enquanto alguns dos maiores executivos financeiros criticavam o presidente Barack Obama pela decisão de impor taxas maiores aos bancos, criar restrições ao uso de capital próprio e obrigá-los a se desmembrar, a ação americana foi defendida por economistas como Nouriel Roubini. Sarkozy defendeu as medidas anunciadas nos EUA, mas cobrou uma negociação global para regras de limitação da atividade financeira.
Adair Turner, presidente da Autoridade sobre Serviços Financeiros, o órgão regulador britânico, disse ao Valor que pretende anunciar, em breve, novos instrumentos financeiros "macroprudenciais" para controlar o sistema financeiro. "Temos de ir além dos instrumentos tradicionais, o controle da oferta de moeda e os juros."
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