Campeões de audiência

Valor Econômico - 28/05/2010
Por Angelo Pavini, de São Paulo

Lista dos fundos com mais cotistas mostra resquícios dos antigos 157 e busca por incentivos ou prêmios em renda fixa ou variável.

Os fundos são hoje uma das mais populares opções de investimento no Brasil, atraindo milhões de pessoas de todas as classes de renda e reunindo um patrimônio de R$ 1,4 trilhão - bem mais que a poupança, com R$ 334,7 bilhões. Mas quem são os fundos com maior número de cotistas? Estudo feito pela Economática em sua nova ferramenta de dados de fundos mostra que as carteiras com mais investidores são ainda as de ações herdeiras dos antigos fundos 157. Mas há também casos de fundos exóticos, que dão prêmios ou oferecem aplicações automáticas para atrair o investidor. Chama a atenção também a taxa de administração desses fundos mais populares, que podem chegar a 8,5%, caso de um fundo de ações do Banco Alfa.

O fundo com maior número de cotistas é um de ações do Bradesco, com 812 mil clientes. Em seguida vem outro de ações, do Itaú, com 641 mil investidores. Ambos são antigas carteiras 157, espécie de dinossauro do mercado brasileiro, que deu origem aos primeiros fundos de ações. Criados nos anos 70 para incentivar a industrialização do país, esses fundos reúnem um grande número de cotistas inativos, que já morreram ou nem lembram mais que aplicaram neles.

Uma das estratégias dos bancos é cobrar taxas de administração altíssimas nesses antigos fundos de ações 157 e fechá-los para novas aplicações. Como a taxa incide sobre o principal aplicado, não sobre o rendimento apenas, o banco acaba se apropriando do dinheiro abandonado e dá fim lentamente ao fundo inconveniente, aproveitando que não há ninguém para reclamar. Mas há exceções. O Itaú transformou a carteira 157 em um dos fundos de ações de varejo mais competitivos do mercado. Isso preserva o patrimônio dos antigos aplicadores.

O terceiro fundo em número de cotistas também é do Bradesco, e é um dos antigos fundos de previdência Fapi. Trata-se de outro tipo de fundo fora de moda e da prioridade dos bancos, substituído pelos modernos PGBL e VGBL. Com uma taxa de administração de 5% ao ano, o fundo do Bradesco rendeu em 12 meses para seu meio milhão de cotistas, até 30 de abril, 3,3% brutos, metade do ganho líquido obtido pela caderneta de poupança.

Em quinto lugar aparece o Hiperfundo do Bradesco, que sorteia um carro por dia e outros prêmios para os cotistas. A estratégia é um sucesso, tanto que a carteira é a mais nova e a mais ativa entre os fundos campeões de audiência do mercado, com 303 mil cotistas e R$ 4,684 bilhões em ativos, um dos maiores patrimônios entre os fundos de varejo. Outros bancos concorrentes também tentaram a estratégia premiada, mas sem sucesso.

Em outra linha estão os fundos de ações de uma empresa, como Petrobras e Vale. Aqui também vale o princípio do incentivo, dado pelas ofertas públicas que permitiram o uso do FGTS e, após os ganhos dos investidores, levaram outros aplicadores a procurarem as carteiras de recursos próprios dessas empresas. O destaque nesse caso vai para as carteiras do Banco do Brasil, com mais de 100 mil cotistas cada.

Há também os fundos de curto prazo, distribuídos nas redes de grandes bancos como Bradesco, Itaú e BB, e os fundos de renda fixa e DI de menor valor de aplicação, caso do Santander Classic. Neles, a taxa de administração varia entre 5,5% e 6% ao ano.

Os três fundos de ações com mais cotistas do Bradesco são fundos 157 do banco e de outras instituições que foram incorporadas ao longo dos últimos anos, explica Marcos Villanova, diretor de Produtos de Investimento do banco. "Eles vieram da década de 70", diz. Um dos problemas desses fundos, afirma Villanova, é a grande quantidade de investidores inativos. "Mandamos cartas, comunicados, mas há muitos casos de cadastros antigos com endereços errados e não conseguimos localizar os donos do dinheiro", diz.

Há investidores que morreram e que, para sacar, os herdeiros precisam incluir os valores nos inventários. "Mas diariamente temos pessoas visitando as agências para saber se têm alguma coisa aplicada nos fundos 157", diz. Nesse caso, a pesquisa é feita a partir do número do CPF ou de algum documento que comprove a aplicação. "Mas em geral são valores pequenos, de R$ 500 a R$ 1 mil reais", diz Villanova.

Situação diferente é a do Hiperfundo. Com aplicações a partir de R$ 100,00, a carteira atrai com o apelo dos prêmios. O investidor recebe o direito de concorrer quando atinge patrimônio de R$ 500 e, depois, tem direito a mais números a cada R$ 250.

Os sorteios são pela loteria federal em séries que vão de zero a 100 mil e incluem um carro, máquinas fotográficas ou aparelhos de DVD. "É um fundo popular com uma rentabilidade que não é aquelas coisas", admite Villanova. Segundo ele, o ganho do Hiperfundo está em torno do da poupança, mas bruto. Ou seja, após o imposto, o ganho líquido é inferior ao da poupança. "Mas além do prêmio ele tem a vantagem da liquidez diária", diz Villanova, que afirma que grandes investidores também aplicam no fundo. "Não são só valores pequenos", diz.

Vários bancos de varejo têm fundos muito bem vendidos em suas redes de agências com grande número de cotistas, diz Willian Eid Júnior, responsável pelo Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getúlio Vargas (FGV). "São fundos com aplicação inicial baixa, o que atrai o pequeno investidor", lembra. Mas o que a lista dos fundos com mais cotistas revela é que o investidor brasileiro em geral não escolhe onde aplicar pela rentabilidade. "O primeiro motivo é para se proteger, por isso há tanta aplicação em fundos DI", diz.

Em segundo lugar, o brasileiro é um apostador nato. "Qualquer esquina tem jogo do bicho, lotérica", lembra. Segundo ele, é a ideia do grande golpe. "O brasileiro pensa que em algum momento vai dar uma tacada genial e ficar rico, e se esquece que isso é para poucos e que, para a maioria, é preciso esforço para enriquecer", diz.

Esforço e atenção, coisas que os investidores não fazem ao optar por fundos pela comodidade ou por prêmios em troca de rendimentos horríveis pois a taxa de administração cobrada é enorme. "No final das contas, o brasileiro se ilude, não se dedica a administrar o próprio dinheiro, não aprende porque acha que vai surgir o grande golpe", diz.

Esse pensamento é válido para a bolsa, onde o investidor espera sempre uma dica ou a hora de comprar olhando o curto prazo, em lugar de fazer um programação constante de investimentos.

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