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Esperança de que Grécia escapará da moratória fica cada vez menor
Valor Econômico - 31/05/2010 Charles Forelle, The Wall Street Journal, de Bruxelas
Quando se fala dos € 110 bilhões (US$ 135 bilhões) que prometeram à Grécia, as autoridades da União Européia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) insistem que uma moratória do país endividado está fora de cogitação.
"Vamos ser concretos e precisos", disse o presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, na semana passada. O pacote da Grécia "não inclui cláusulas para reestruturação da dívida".
Mas mesmo que Van Rompuy não fale sobre isso, os economistas do setor privado certamente falarão. "Neste momento, está bastante claro que a reestruturação é a única alternativa", diz Lena Komileva, da Tullett Prebon.
"É quase certo, a dívida da Grécia terá que ser reestruturada dentro de um a dois anos", diz Eswar Prasad, ex-representante do FMI que hoje está na Universidade Cornell, nos Estados Unidos.
Josef Ackermann, presidente do Deutsche Bank, disse este mês que considera "duvidoso" que a Grécia conseguirá pagar toda a sua dívida.
Por que tanto pessimismo? O governo grego tinha dívidas de € 273,4 bilhões no fim do ano passado, o equivalente a 115,1% do PIB. A proporção vai subir de forma acentuada até 2012, já que o gigantesco déficit orçamentário encarece a conta a cada ano. Existem poucos sinais de que a estagnada economia grega vá crescer perto do necessário para enxugar a dívida.
O plano da UE e do FMI, que envolve empréstimos de € 80 bilhões de outros 15 países da zona do euro e de € 30 bilhões do Fundo, é suficiente para manter a Grécia em dia com suas dívidas por alguns anos, enquanto o país faz gigantescos cortes e mudanças fiscais. Isso, espera-se, vai tornar o país mais atraente para os credores privados, e o país poderá novamente ser inserido no mercado de capitais.
Se os esforços da Grécia conseguirem baixar suficientemente o déficit público, "aí a relação dívida/PIB vai começar a retroceder e não haverá dúvidas em relação à sustentabilidade", disse John Lipsky, o número 2 do FMI, em uma teleconferência no dia do anúncio do resgate.
O setor privado é mais pessimista por duas razões principais.
A primeira é que os cortes são brutais e pode ser que as autoridades gregas tenham dificuldades para sustenta-los.
O plano, particularmente este ano e no próximo, determina enormes aumentos de impostos e um drástico corte de salários e pagamentos para muitos servidores públicos.
A segunda é que, mesmo que tudo vá bem, a simples matemática favorece a restruturação.
Em 2009, a Grécia registrou um déficit primário de € 20 bilhões, o que mostra que, mesmo excluindo juros pagos sobre a dívida, o governo estava no buraco em € 20 bilhões.
Como um consumidor com despesas além do salário, a Grécia precisou tomar emprestado só para manter as luzes acesas - deixar de pagar o cartão de crédito não resolveria o problema.
Uma moratória agora "seria a receita para uma desordem significativa", disse Lipsky. Mas o programa da UE e do FMI reduz o déficit primário.
De acordo com estimativas do FMI, até 2012, o déficit primário terá sido convertido em superávit de € 2,4 bilhões. Até o momento, a Grécia estará tomando dinheiro emprestado só para lidar com a dívida existente.
O custo dessa dívida está aumentando. Em 2012, a Grécia deve gastar € 17,1 bilhões em juros, ante € 11,9 bilhões do ano passado. Em 2014, quando a dívida da Grécia deve atingir um ápice de 353,8 bilhões, o país vai pagar € 20,4 bilhões em juros aos credores. Não muito longe do que o governo vai gastar com salários.
Mas isso reforça a necessidade da Grécia de reduzir a carga de juros. "O pagamento de altas taxas de juros e a ausência de um déficit primário são as circunstâncias exatas que tornam a moratória individual racional para o devedor", disse Willem Buiter, do Citibank, em uma análise no começo do mês.
Em 2012 ou 2013, com a dívida se aproximando dos 150% do PIB, "a noção de quitar as dívidas com os bancos da Europa Ocidental não vai soar muito bem" na Grécia, diz Prasad, da Universidade Cornell. "Especialmente porque será necessário encolher muito os gastos sociais."
Komileva, da Tullet Prebon, diz que a Grécia enfrenta uma "crise de solvência". Isso ficou claro com a reação relutante dos investidores ao pedido do Banco Central Europeu para comprar dívida soberana grega e de outros países no mercado. O rendimento do bônus grego de dez anos estava em 7,82% na quinta-feira, abaixo do nível de antes do resgate, mas ainda assim mais de cinco pontos percentuais acima do rendimento da dívida alemã.
Os devedores insolventes, diz Komileva, têm três opções: levantar recursos com um credor que normalmente seria a última opção; melhorar seu próprio desempenho; ou reduzir os passivos através da reestruturação.
A Grécia já tentou os dois primeiros, diz ela, mas eles "não resolveram a causa da insolvência: falta de crescimento" e finanças públicas medonhas. Outra questão levantada pela crescente dívida da Grécia é que, em algum momento, o país ainda vai precisar ter acesso a financiamentos de grande valor do setor privado. Isso, claro, foi o que detonou o problema atual.
O FMI projeta que, em 2014, a Grécia terá que tomar emprestados € 70,7 bilhões e terá uma dívida acumulada com o setor privado de € 265 bilhões.
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