Mercado acelera consolidação

Valor Econômico - 01/06/2010
Por Graziella Valenti, de São Paulo

Dinheiro novo das ofertas de ações foi usado para ampliação de capacidade e compra de concorrentes.

A retomada do mercado de capitais como alternativa de captação de recursos serviu como catalisador de um período de expansão sem igual para as empresas brasileiras. O aumento do tamanho das companhias coincide exatamente com a fase de maior atividade do mercado.

Embora não haja ainda um levantamento que demonstre a contribuição das emissões de ações na evolução da economia e das empresas brasileiras, os especialistas destacam sua importância como fonte de dinheiro novo.

Além disso, o ritmo do avanço na quantidade de companhias bilionárias deixa evidente que a curva é de expansão, diferentemente do que ocorre com mercados maduros, como o americano. No Brasil, o total de companhias com receita líquida anual superior a US$ 1 bilhão avançou 118%, de 2000 a 2009, para 85 companhias. Nos Estados Unidos, esse aumento foi de 25%, para 934 companhias.

As diferenças na trajetória dos dois países se evidenciam quando a comparação de 2009 é feita com o ano anterior, do estouro da crise financeira internacional. Em 2008, o Brasil tinha 67 companhias abertas com receita acima de US$ 1 bilhão e seis acima de US$ 10 bilhões - equivalentes em receita a 22% do PIB. Nos Estados Unidos, o ano em que Lehman Brothers quebrou e muitos outros bancos desapareceram fechou com 997 empresas com receita bilionária e 245 acima de US$ 10 bilhões, que somavam 76% do produto nacional.

Enquanto as empresas brasileiras seguiram em crescimento no ano passado, as bilionárias americanas encolheram em tamanho e em riqueza relativa. A nossa economia interna está aquecida, enquanto a americana patina desde a crise.

Somado às melhoras macroeconômicas, o Brasil contou com grandes mudanças estruturais no mercado de capitais brasileiro neste período, que vão desde à reforma da Lei das Sociedades por Ações até a criação do Novo Mercado, passando pela modernização da regulamentação específica. Além disso, o Brasil entrou definitivamente na lista de preferências dos investidores estrangeiros.

De 2004 para cá, a bolsa brasileira passou a desempenhar seu papel fundamental, de agente financiador da economia. Até o fim de 2009, foram realizadas cerca de 190 ofertas de ações na BM&FBovespa, que movimentaram um total de R$ 203 bilhões. Dessas, 120 foram aberturas de capital e esse número continua crescendo.

Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa, acredita que já estão consolidadas na cabeça do empresário brasileiro as possibilidades que o mercado representa. Para ele, o que falta é abrir espaço na bolsa para empresas de menor porte, que queiram fazer captações menores. E é nisso que a bolsa deve ampliar esforços.

Somente neste ano, as companhias já captaram R$ 10,5 bilhões, mesmo com a atividade restrita pela seletividade do mercado e mais recentemente pelas preocupações com Europa e China. No total, as ofertas de ações movimentaram R$ 13,2 bilhões.

Para Gilberto Mifano, presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a conquista da estabilidade econômica permitiu que as companhias olhassem para dentro de seus negócios. Assim, houve maior profissionalização das gestões. Os conselhos de administração, em especial, ganharam papel estratégico fundamental e foram, na opinião dele, o maior avanço de governança das companhias.

Desde o início da revitalização do mercado, marcada pela estreia da Natura no pregão paulista, há seis anos, o caixa das companhias foi irrigado por R$ 133,2 bilhões captados com a emissão de novas ações, até o fim de abril deste ano. Além disso, outros R$ 83,7 bilhões foram colocados em circulação na economia, com a monetização de patrimônios de controladores de empresas que venderam parte de seus negócios.

Os recursos obtidos pelas companhias serviram tanto para investimentos que elevaram o faturamento das empresas com a criação de nova capacidade como para ampliar o tamanho dos negócios com as consolidações setoriais.

O economista Bernard Appy, contratado há pouco tempo para a diretoria de novos negócios e produtos da BM&FBovespa, acredita que o cenário de estabilidade permitiu que as companhias avançassem tanto no mercado doméstico quanto no cenário internacional, pois facilitou o planejamento dos negócios.

A sobrevivência das empresas no longo prazo está ligada à competitividade e, por isso, as empresas vão em busca de escala e de novos mercados. Appy acredita que agregar competitividade à indústria nacional é um dos grandes desafios do país. Um mercado de capitais ativo contribui para isso com a redução do custo de capital, mas há muito ainda a ser feito.

Alexandre Pierantoni, sócio da PricewaterhouseCoopers (PwC), explica que a listagem de ações na bolsa traz praticamente duas moedas à companhia. A empresa tanto pode emitir para levantar dinheiro para financiar as compras, como fazer aquisições com as próprias ações - prática crescente nos últimos anos. "Quanto maiores os negócios, mais faz sentido que sejam feitos com troca de ações." Cerca de metade das fusões e aquisições realizadas no país envolvem companhias abertas.

Além disso, segundo Pierantoni, já é mais comum as empresas brasileiras pensarem em consolidação internacional. "Não são mais só alvo das multinacionais."

O professor do Ibmec Carlos Antonio Rocca, também coordenador Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec), acredita que uma maior participação do mercado de capitais no crescimento das companhias brasileiras também poderia ser por meio da emissão de dívida. Na opinião de Rocca, embora o uso desse instrumento seja crescente, ainda esbarra na ausência de liquidez de um mercado secundário desenvolvido para esses títulos.

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