Projeções para inflação em 2011 caminham para o centro da meta

Valor Econômico - 02/06/2010
Angela Bittencourt, de São Paulo

Política monetária: Firmeza do BC agora reforça expectativa de IPCA sob controle no futuro

O aperto monetário e o enfraquecimento de preços na esteira da crise europeia começam a atingir o canal das expectativas e podem conduzir a inflação mais rapidamente para o centro da meta de 4,5% em 2011. Um ciclo forte de aperto monetário agora, entendem especialistas, reduz a chance de uma ação mais contundente do Banco Central no primeiro ano do novo governo, quando a economia estará sob o efeito da política em curso.

Confiantes de que o BC cumprirá o ciclo, as instituições que apresentam maior margem de acerto em projeções para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), no Boletim Focus do Banco Central, já arrastaram a estimativa do ano que vem para o patamar de 4,6%. Mas a mediana das projeções do mercado para o IPCA permanece em 4,80% há quase dois meses. Para a Selic, a perspectiva é de 11,75% em dezembro, indicando o ciclo de alta de 300 pontos-base deflagrado em abril. 
        
   

"Não é absurdo a inflação deste ano fechar em 5% ou 5,2% e o índice de 2011 cravar 4,5%. Os preços começam a arrefecer e o ciclo de alta da Selic vai fazer efeito", afirma Fábio Silveira, economista-chefe da RC Consultores.

Ele não prevê interrupção da alta da Selic, mas afirma que o BC poderá conter o ritmo de ajuste com a Selic em 11% em dezembro. "Com inflação no centro da meta, o juro nominal poderá ser menor para manter o juro real entre 5,5% e 6%. Essa margem pode ser baixa para o Brasil, mas é extremamente elevada frente a outras economias".

"O petróleo já recuou cerca de US$ 10 desde o final do ano. E petróleo mais barato, em função da crise europeia, afetará a cadeia petroquímica com repercussão em outros preços que também estão esfriando. Isso ocorre, apesar de, no Brasil, a inflação do início do ano carregar a inflação do ano anterior. É fato que a indexação de contratos pesa. Mas existem custos de produção, na base da economia, e estes estão baixando. A tendência acabará chegando a outros preços", diz.

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, prevê ciclo de alta da Selic de 425 pontos-base, com a taxa atingindo 13% em dezembro. "Por onde se olha, se vê crescimento. Os dados de desemprego e crédito são fortes. Não dá tomar o resultado da produção industrial (de abril em queda de 0,7% frente a março) como sinal de desaquecimento. A economia vai se acomodar talvez no quarto trimestre. Mas para trazer a inflação para a meta será necessária uma política monetária mais ativa".

Vale compara o momento atual com 2008. Lembra da volatilidade dos ativos, da tensão internacional e da economia doméstica crescendo de vento em popa. Mas agora, diz, as políticas monetária e fiscal são expansionistas. O economista cita a Selic. Embora em processo ascendente, a taxa está em nível muito inferior ao visto em 2008, quando atingiu 13,75%.

"Até por conta disso, temos ainda um chão de crescimento pela frente antes da acomodação", avalia.

A LCA Consultores elevou, há poucos dias, sua estimativa do ciclo de aperto monetário para 300 pontos. Do total, 75 pontos-base referem-se à elevação feita pelo Copom em abril.

Fernando Sampaio, diretor de macroeconomia da LCA, considera que um importante vetor de desaceleração, a ressaca da antecipação de consumo de bens duráveis, vem sendo subestimada. E já tem informação de que a indústria vem revendo a intenção de remarcar preços.

Outro fator de desaceleração, pondera Sampaio, vem do crédito. Cálculos da LCA mostram que 18% da renda das famílias brasileiras estão comprometidos com endividamento. "Para comparação, nos Estados Unidos, esse comprometimento é de 15%. Podemos, portanto, ter um desaquecimento do crédito via demanda, apesar da perspectiva de oferta firme pelo interesse dos bancos privados em recuperar terreno perdido para os bancos oficiais".

José Francisco de Lima Gonçalves, do Banco Fator, também elevou a projeção de ciclo de alta da Selic para 300 pontos, projetando aumento de 75 pontos na semana que vem. A sequência esperada sofreu alteração.

"Nossa expectativa desde março era de alta de 100 pontos em junho e mais 100 pontos em julho, encerrando-se assim o ciclo. Isso parecia cabível dada a avaliação do Copom a respeito da pressão de demanda e da deterioração das expectativas sobre a inflação de 2011", afirma.

Em relatório, o economista pondera que incertezas internas foram relativizadas, incentivando a revisão das projeções. "De um lado, sinais de desaquecimento já existem. De outro, a deterioração das expectativas para o IPCA de 2011 parece ter sido bastante aliviada. A trajetória de alta foi interrompida".

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