Susto com ações afugenta investidores

Valor Econômico - 07/06/2010
The Wall Street Journal

Mercados: Aplicadores de Wall Street relatam que instabilidade vivida desde 2008 é a pior de suas carreiras

Em 12 anos como consultor no varejo financeiro da Charles Schwab, George Pennock pensava ter visto todo tipo de mercado. Então, em 6 de maio, ele e seus 250 clientes passaram por algo novo. Pennock estava no escritório da Schwab, em Englewood, Colorado, perto de Denver, falando pelo telefone com um aposentado que havia transferido seu dinheiro para a Schwab no ano passado, porque dizia sentir-se ludibriado pela sua antiga corretora. Enquanto falavam, Pennock mantinha um olho na tela de seu computador e pôde ver o Dow cair 250 pontos, ricochetear lateralmente e voltar a entrar em queda livre, despencando, 300, 400, 900 pontos. Seu cliente via a mesma coisa, pela CNBC.

"O que está acontecendo, George?", perguntou o aposentado. "Você tem alguma explicação para isso?"

Pennock não tinha. Ele estava pensando em desligar e contatar clientes que haviam saído do mercado de renda variável após terem sido esmagados em 2008 e 2009. Alguns saíram no ponto mais baixo, então ficaram de fora enquanto o mercado avançava 80%. Talvez vissem o declínio da ocasião como uma oportunidade de compra.

Ele não teve nem chance. Em minutos, a anomalia do mercado acabou e o Dow Jones voltou a subir. Foi apenas no dia seguinte que Pennock, 37 anos, começou a avaliar o impacto dos acontecimentos na psicologia dos investidores. Ele chegou a seu escritório na manhã seguinte para encontrar 22 recados na secretária eletrônica. Até o fim do dia eram 50 - 20% de sua base de clientes.

Pennock precisou de duas semanas para retornar adequadamente todas as ligações. "Essas conversas são demoradas", conta. "Eles precisam de muitas orientações." Alguns clientes queriam recuar; ele lembrou-lhes por que tinham feito planos financeiros em primeiro lugar. Um piloto de empresa aérea aposentado queria saber se alocar 30% de seus ativos em renda variável era um volume demasiado. (Pennock assegurou-lhe que não).

Outro investidor, que esperava há cinco meses para voltar ao mercado, tinha medo de ter pedido a oportunidade. A maioria, simplesmente, queria ser tranquilizada. A queda livre de 6 de maio pode ter sido um acontecimento incomum, mas parecia ser mais um sinal de que o campo de jogo estava inclinado contra o pequeno investidor. "Eles se queimaram muito no passado", diz Pennock. "E eles não querem voltar a ficar nessa situação nunca mais."

Muitos pequenos investidores começavam a voltar na ponta dos pés à renda variável, quando o "crash" de 6 de maio e a crise de crédito europeia abalou os mercados, completando um ciclo particularmente cruel. Nos 12 meses anteriores, enquanto o Standard & Poor ' s 500 recuperava-se 69% de sua mínima de 9 de março de 2009, os investidores individuais haviam retirado um total de US$ 11,5 bilhões de fundos mútuos de ações nos Estados Unidos e injetado US$ 506 bilhões em fundos de bônus, com menor rendimento, de acordo com a TrimTabs Investment Research. Em meados do segundo trimestre, começavam a reverter o curso, voltando a aventurar-se em ações.

Em março, haviam canalizado US$ 13,9 bilhões em ETFs (fundos negociados em bolsa como se fossem uma ação) e fundos mútuos, e, em abril, US$ 6,9 bilhões. Na terceira semana de maio, retiraram US$ 29,3 milhões de fundos mútuos de ações nos Estados Unidos e colocaram US$ 8,2 bilhões em bônus. Uma pesquisa da Associação Americana de Investidores Individuais feita na semana do "crash" em maio mostrou que a "percepção de queda do mercado" havia passado de 28%, na semana anterior, para 36%. Em 10 de maio, o dinheiro parado em bancos e títulos de curto prazo chegava a US$ 9,36 trilhões, em comparação aos US$ 7,44 trilhões, de maio de 2007.

O período desde o início de 2008 "é o pior desde que comecei na empresa", diz Charles Schwab, considerado o "pai" dos investidores individuais americanos modernos. "Esses são os mercados mais violentos. A maioria das pessoas ainda está em estado de medo. Há esses canalhas fazendo todas essas coisas. As pessoas pensam: 'Em quem posso confiar?'."

Schwab está sentado em seu escritório em San Francisco, olhando pela janela para a ponte Bay Bridge e refletindo sobre a psicologia atormentada do investidor americano. "Onde eles estão?", pergunta, suspirando. "Este é o período mais violento que já vi", diz. "Foi o fim do capitalismo como o conhecíamos. A inteira definição de segurança e solidez - o que isso realmente significa atualmente?"

Schwab, agora aos 72 anos, e Jack Bogle, fundador do Vanguard Funds, são os velhos reis do setor de investimento de varejo. Ambos desempenharam papéis fundamentais na era dourada dos investidores individuais, entre agosto de 1982 e março de 2000, quando o índice Standard & Poor ' s 500 passou de 102 para 1.527 pontos e comprar e manter ações parecia ser os caminho mais adequado para a segurança. Bogle foi pioneiro dos fundos mútuos e Schwab abriu a porta para a negociação de ações por pequenos investidores. Quando o Congresso desregulamentou as comissões de corretagem em 1975, algumas corretoras reagiram elevando suas taxas; Schwab cortou a sua, possibilitando que a classe média arcasse com as operações e tornando-se a corretora das massas. A receita de sua empresa passou de US$ 387 milhões em 1990 para US$ 5,8 bilhões em 2000.

À medida em que o investimento individual se tornou um estilo de vida, Schwab, inevitavelmente, atraiu concorrentes, especialmente corretoras rivais de baixos preços (e, posteriormente, as corretoras on-line de baixos preços), como a Ameritrade e a E*Trade, além de instituições com serviços completos, como a Fidelity. A empresa de Schwab surfou a onda de alta do setor tecnológico no fim dos anos 90, mas foi afetada pelo forte declínio nas operações após a crise de 2000. O próprio Schwab deixou o cargo principal em 2003, apenas para voltar um ano depois, renovando o compromisso da empresa com o pequeno investidor. (Hoje, o executivo-chefe é Walt Bettinger.)

Durante o pânico financeiro de 2008, a Schwab atraiu investidores que fugiram do Merrill Lynch, Wachovia, E*Trade e outras firmas em dificuldades. Os ativos sob administração da Schwab subiram 25%, para US$ 1,4 trilhão entre 2008 e 2009, embora a receita tenha recuado 19%, pressionada pelas baixas taxas de juros. Na semana passada, as ações da empresa estavam cotadas em US$ 16, em queda de US$ 3 em comparação a 30 dias antes.

Ao transferir o poder para os investidores individuais no início da onda de alta dos mercados de ações, Schwab, Bogle e Peter Lynch, da Fidelity, inadvertidamente criaram um monstro.

À medida que jogar no mercado tornou-se um passatempo nacional, investir tornou-se sinônimo de tentar escolher as melhores ações. A renda variável era vista como uma poupança. Hoje, legiões de investidores veem-se divididos entre o recém-descoberto desejo por segurança e a tentação de voltar aos velhos hábitos.

Ainda pior do que isso, enquanto os americanos se tornavam adeptos do "faça-você-mesmo", às vezes, até se tornando "day traders", comprando e vendendo posições no mesmo dia, seu sucesso - especialmente durante o crescimento da bolha das pontocom e do setor imobiliário - mascarou uma mudança profunda no equilíbrio de poder. A riqueza migrou para as instituições, para fundos hedge e bancos de investimento como o Goldman Sachs, que criaram mesas de negociação para seu próprio capital, negociando instrumentos financeiros cada vez mais herméticos com seu próprio dinheiro. Os investidores institucionais agora detêm cerca de 70% das ações das empresas americanas de capital aberto, em comparação aos 35%, de 1975, segundo Bogle.

À medida que os algoritmos de negociação foram ficando mais complexos e os computadores ganharam mais velocidade, a vantagem dos grandes nomes foi ficando cada vez maior.

Quando o mercado atingiu seu ponto mais baixo em março de 2009, Schwab distribuiu vídeos a seus clientes nos quais o fundador tentava passar um tom tranqüilizador. Apenas esperem, instava. "Nós lhes dissemos", conta Schwab, "o mundo não está acabando". Porém, como em quase toda crise de mercado desde 1987, os investidores fugiram para papéis seguros justamente no momento errado, trocando ações por dinheiro e renda fixa.

Agora, diz Schwab, sua maior preocupação é que os investidores percam de novo a oportunidade de retornar ao mercado.

Há US$ 2,98 trilhões em fundos no mercado monetário, segundo a TrimTabx, e muito mais em certificados de depósitos e em contas de poupança.

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