Sem sinais de fuga de capitais em massa

Valor Econômico - 07/06/2010
Por dentro do Mercado: Cristiane Perini Lucchesi

Em meio às tensões nos mercados com a crise de dívida dos governos na Europa, o Brasil não vive, pelo menos por enquanto, nada próximo a uma fuga em massa de capitais de curto prazo. Isso explica a relativa calmaria no câmbio e nos mercados de juros futuros mesmo em maio e junho, depois que a crise se aprofundou e derrubou o euro e os preços das ações.

Os dados do setor externo do mês passado ainda não foram divulgados pelo Banco Central. Mas Darwin Dib, economista do Itaú, notou que na prévia de maio até o dia 25 mesmo o investimento externo em portfólio se mantinha positivo. Animados com os juros mais altos no país e a perspectiva de novas altas, os investidores estrangeiros trouxeram US$ 1,7 bilhão a mais do que tiraram em investimentos de renda fixa. O ingresso de recursos externos em carteira em maio só não foi maior por causa da saída de investimentos na Bolsa de Valores de São Paulo, de um total líquido de US$ 500 milhões no período, segundo o BC. No ano, até 25 de maio, o fluxo estrangeiro de carteira em ativos locais acumula entrada líquida de US$ 15,6 bilhões.

Ainda em abril, antes de a crise se ampliar, a taxa de rolagem da dívida externa brasileira de médio e longo prazo (relação entre as captações e os vencimentos) havia chegado a 210%. Ou seja, as empresa não apenas estavam rolando dívidas externas, mas estavam também antecipando captações aproveitando a janela de oportunidade. Por isso, as pressões de rolagem de dívida de curto prazo não deverão ser significativas, o que sinaliza menos pressão no câmbio, mesmo com o estresse na Europa.

     


Mas, com o mercado para captações de eurobônus caro demais, a taxa de rolagem da dívida externa deve se reduzir em maio e junho. Por enquanto, pelo menos os exportadores continuam com linhas de crédito de sobra disponíveis, diz Marlene Millan, que é a diretora do departamento de câmbio do Bradesco. Ela informa que há diversos bancos europeus que tiveram aumento no seu custo de captação global que têm pressionado por spreads cerca de 0,10 ponto percentual mais altos. "Mas eu ainda não tomei a linha e não sancionei o aumento", afirma. Ela acredita, no entanto, que o momento é delicado e pressões desse tipo deverão se ampliar. Os spreads para um banco de grande porte continuam em torno de 0,50 ponto percentual acima da Libor, a taxa interbancária de Londres, em linhas à exportação de prazo de vencimento em até seis meses.

Com o dólar mais alto em maio, os exportadores ingressaram com volume maior de sua receita no exterior no país no mês passado e a diferença entre o câmbio contratado para a exportação e o total efetivamente exportado em 12 meses caiu de US$ 16,5 bilhões no final de abril para US$ 15,5 bilhões no final de maio. Ou seja, além do crédito externo bancário disponível, há US$ 15,5 bilhões de receitas dos exportadores no exterior e parte disso pode ingressar no país se o dólar subir muito.

A crise traz, no entanto, menor investimento externo direto ao país. Os números de abril já sinalizaram isso: os ingressos líquidos foram de um total de US$ 2,223 bilhões, frente a US$ 3,409 bilhões de abril de 2009. O BC havia previsto a entrada de US$ 2,8 bilhões em abril e vê em maio o ingresso de US$ 1,6 bilhão. As remessas de lucros e dividendos também devem crescer e pressionar o câmbio financeiro: foram a US$ 3,346 bilhões em abril, em relação a US$ 1,716 bilhão há um ano.

Na sexta-feira, o dólar terminou a R$ 1,859 na venda, valorização de 1,75% no dia e de 2,71% na semana.

O mercado espera que o Comitê de Política Monetária suba os juros básicos Selic em 0,75 ponto percentual na reunião desta semana.

Cristiane Perini Lucchesi é repórter
E-mail: cristiane.lucchesi@valor.com.br


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