Previdência volúvel

Valor Econômico - 10/06/2010
Por Alessandra Bellotto, de São Paulo

Turbulência da bolsa em maio provoca resgates de recursos dos fundos que investem parcela do patrimônio em renda variável.

Quem tem previdência está olhando para o futuro, certo? Não necessariamente. Os números de maio mostram que o investidor de planos abertos PGBL e VGBL está sempre de olho no retrovisor, reagindo ao que passou. A cautela verificada no início do mês passado, diante de uma nova onda de pânico nos mercados criada pela crise na zona do euro, foi acentuada ao longo do período. A queda de 6,64% do Índice Bovespa em maio - depois de experimentar perda de 3,35% em um único pregão, no dia 4 - provocou uma fuga de recursos dos fundos de previdência com ações, quebrando uma sequência positiva de cerca de um ano.

Segundo levantamento das consultorias NetQuant e Towers Watson com 485 fundos de previdência, as carteiras mais agressivas, que destinam parte dos recursos para a renda variável, registraram resgates líquidos de R$ 48 milhões. Os fundos com até 30% em ações foram os mais prejudicados, com R$ 40,9 milhões de saídas. As carteiras com até 49% perderam R$ 20,4 milhões. Na contramão, as opções menos agressivas, com até 15% em ações, receberam aplicações de R$ 13,26 milhões.

Os fundos 100% renda fixa e multimercados sem renda variável atraíram investimentos de R$ 1,178 bilhão. Vale destacar que o volume total captado pelos fundos de previdência aberta em maio, que foi de R$ 1,13 bilhão, também diminuiu, tanto em relação ao mês anterior quanto ao mesmo período do ano passado.

Em abril, os fundos com renda variável tiveram captação líquida superior a R$ 1,2 bilhão e os sem ações, de R$ 643,9 milhões, somando R$ 1,8 bilhão. Em maio de 2009, as carteiras de previdência aberta atraíram um total de R$ 1,5 bilhão. Só que, naquele mês, os fundos sem ações lideravam as entradas, com R$ 1,2 bilhão, ante R$ 286,3 milhões das carteiras mais agressivas.

Mesmo com a fuga do risco em maio, no acumulado do ano, as opções de fundos com renda variável ainda brilham. Do total de R$ 7,3 bilhões aplicado no setor, as carteiras com parcela em ações receberam quase 60%. Os fundos sem renda variável atraíram outros R$ 2,9 bilhões.

Não à toa, o patrimônio líquido das carteiras mais agressivas cresceu mais no último ano do que a renda fixa. A pesquisa mostra que, em 12 meses, incluindo maio, a expansão dos ativos sob gestão em fundos com ações foi de 61,71%, chegando a R$ 40 bilhões. Já o patrimônio líquido das carteiras sem renda variável aumentou 18,32% no mesmo período, para R$ 116 bilhões.

Daqui para frente, a expectativa dos profissionais do setor é de que o comportamento do investidor permaneça nessa toada, já que a bolsa mantém a trajetória de baixa e não há sinais de melhora do cenário externo. Em junho, até ontem, o Ibovespa amargava queda de 2,49%.

Isso mesmo levando em conta que o dinheiro de previdência é de longo prazo e que as alternativas que embutem um risco maior tendem a oferecer melhores retornos. Nos últimos 12 meses, o levantamento das consultorias NetQuant e Towers Watson mostra que a rentabilidade dos fundos com renda variável está cima das carteiras de renda fixa e multimercados sem renda variável. A opção mais agressiva, com até 49% em ações, acumula retorno de 10,43% até maio. Os fundos com até 30% rendem 8,43% e os com até 15%, 7,41%. Já as carteiras de renda fixa registram ganho de 7,34% e os multimercado sem ações, 7,11%.

Neste ano, a desvalorização de 8,08% da bolsa afetou, em parte, o retorno dos fundos com ações. Em cinco meses, as carteiras com até 49% registram a maior perda, de 1,07%, mas nada comparável ao indicador. Os fundos com até 30% em renda variável estão praticamente estáveis (-0,04%) e os com até 15% acumulam ganho de 1,10%. Já as opções de renda fixa e multimercados sem ações têm retorno de 2,95% e 2,94%, respectivamente, nos cinco meses de 2010.

No ranking das seguradoras, a BrasilPrev Seguros e Previdência é líder em captação em maio e no acumulado do ano, com R$ 466,7 milhões e R$ 2,5 bilhões, respectivamente. Na segunda posição, aparece a Itaú Unibanco Vida e Previdência, com R$ 263,1 milhões em maio e R$ 1,3 bilhão no acumulado de 2010. Bradesco Vida e Previdência vem em seguida, com entradas de R$ 202,7 milhões no mês e R$ 1,092 bilhão no ano. Em patrimônio, contudo, a Bradesco está no topo da lista, com R$ 48,9 bilhões, seguida pelo Itaú (R$ 40,9 bilhões) e BrasilPrev (R$ 23,8 bilhões), mostra o levantamento das consultorias.

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