Equívocos na crise forçam mudanças na análise de risco

Valor Econômico - 14/06/2010
Aline van Duyn, Financial Times, de Nova York

Dos dois lados do Atlântico, o debate sobre como reformar as agências avaliadoras de risco de crédito ganhou nova força e entusiasmo. A magnitude das mudanças cogitadas é tal que, desde o início de abril, o valor de mercado das ações da Moody ' s Investors Service e da Standard & Poor ' s, as duas maiores agências de "rating", caiu em bilhões de dólares.

O trabalho de se avaliar o crédito, dominado pelas duas e pela Fitch, sobrevive basicamente das tarifas que as agências cobram das instituições e empresas emissoras de bônus, com os investidores recebendo as informações de forma gratuita. Após a crise financeira, os conflitos de interesse dessa relação vêm sendo questionados.

Antes da crise, durante a tendência de alta dos valores mobiliários garantidos por hipotecas dos Estados Unidos - desde simples títulos de dívidas lastreados por créditos imobiliários até as extremamente complexas "obrigações garantidas por outros títulos" (CDOs, na sigla em inglês) -, as classificações máximas, "triplo A", para os lançamentos foram concedidas excessivamente, o que alimentou sua demanda e gerou receitas substanciais para as principais agências avaliadoras. De acordo com a Comissão de Investigação da Crise Financeira, que investiga as causas dos problemas no mercado, a Moody ' s classificou, entre 2000 e 2007, "títulos lastreados por hipotecas" (MBS, na sigla em inglês) no valor de US$ 4,7 trilhões e CDOs de US$ 736 bilhões.

O presidente da comissão, Phil Angelides, disse em audiências em Nova York na semana passada que a Moody ' s era uma "fábrica de triplo A", cuja expansão levou a um aumento de seis vezes no valor de suas ações entre 2000 e 2007. "Os investidores que confiaram nas classificações da Moody ' s não se saíram muito bem", afirmou.

Muitos dos papéis avaliados pelas agências viram seu valor despencar e tiveram suas classificações rebaixadas acentuadamente quando os preços residenciais nos EUA despencaram - sendo que as perdas para o sistema financeiro continuam a afetar economias pelo mundo inteiro. As principais agências avaliadoras sustentam, reiteradamente, que aprenderam a lição e que adaptaram muitos de seus procedimentos e controles.

De qualquer forma, os esforços para regulamentar mais pesadamente as agências ganharam mais força. Nos EUA, a investida chega depois de uma série de importantes audiências, como as presididas pelo senador Carl Levin e por Angelides, que colocaram em evidência os equívocos cometidos com os papéis hipotecários e os conflitos de interesse potenciais no modelo de classificação do risco de crédito.

Neste mês, a Securities and Exchange Commission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) introduziu nova regra exigindo grande transparência sobre a informação usada para classificar operações securitizadas, com a ideia de encorajar todos os interessados a também analisar essas informações - a regra chamada "17g-5". Além disso, são cogitadas novas leis que poderiam ter dois impactos significativos. Uma das leis poderia aumentar a responsabilidade legal que as agências avaliadoras enfrentam - deixando-as mais vulneráveis a processos de emissores e investidores. A outra poderia mudar a forma como os "ratings" são distribuídos, como uma proposta sugerindo que a SEC determine quem faria a classificação de cada emissão. "O que ainda está incerto no longo prazo é quem pagará as agências de ' rating ' ou como os ' ratings ' são distribuídos", diz Anna Pinedo, sócia da Morrison Foerster.

Na Europa, o impacto das classificações de crédito durante a crise da dívida grega - e as polêmicas decisões de rebaixar os títulos da Grécia e Espanha - também evidenciaram seu grande poder de influência. Na semana passada, a Comissão Europeia (CE) decidiu incrementar a concorrência ao exigir que a informação que baseia os "ratings" seja aberta para todas as agências - algo similar à regra "17g-5" da SEC. Bruxelas também propôs colocar as agências que operam na Europa sob supervisão de uma nova autoridade reguladora da União Europeia. "A falta de concorrência [entre as agências] é de particular preocupação", afirmou José Manuel Barroso, presidente da CE.

Mudanças na regulamentação podem encorajar novos concorrentes no setor. Há um punhado de empresas disputando para entrar no mercado ou expandir sua participação. Algumas, como a DBRS, uma agência avaliadora com sede em Toronto, estão à margem há anos - embora mais recentemente a agência tenha conquistado maior participação. "Há muito interesse [entre os investidores] em buscar outras opiniões", afirmou Daniel Curry, presidente das operações da DBRS nos EUA. "Isso nos dá a chance de entrar e nos vender na prática."

Outros são completamente recém-chegados, que ainda não adquiriram o status de agência de "rating", necessário nos EUA, como a K2 Global Partners, criada por Jules Kroll. Outras, como a empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC), estão na expectativa. "Há esforços por parte dos parlamentares para reduzir o poder do oligopólio das agências de ' rating ' ", disse Kroll. "Esses esforços poderiam representar bem mais do que uma chance às abordagens alternativas."

A base do modelo, no qual os emissores de títulos pagam pelas classificações, continua polêmica. É improvável, no entanto, que isso mude. A principal alternativa é que os investidores paguem. Muitos, contudo, como Warren Buffett, o investidor bilionário cuja Berkshire Hathaway é a maior acionista da Moody ' s, são contrários. Há algumas agências, como a Egan Jones, que cobram dos investidores, mas sua participação de mercado é baixa. Cobrar dos investidores é "um caminho para ter uma operação pequena", afirmou Kroll.

Isso significa que a chave continua sendo administrar os conflitos de interesse. Buffett disse na semana passada que as agências, inevitavelmente, acabam concorrendo por participação de mercado - seja em preço ou diminuindo o padrão de seus "ratings". O investidor sugeriu que um monopólio poderia ser a melhor resposta. "Se houvesse [apenas] uma agência de ' rating ' , não precisaria concorrer."

Com as leis encaminhando-se em outra direção, administrar a compulsão pela conquista de participação cada vez maior será vital, até para poder recuperar a confiança dos investidores nas classificações. "Para qualquer agência de ' rating ' há um risco moral", disse Curry. "Uma diminuição dos padrões no curto prazo eleva suas receitas, mas no fim das contas pode destruir seu modelo de negócios. Agora, todos estão sendo conservadores e cuidadosos. O desafio é como as pessoas se comportarão daqui a sete ou oito anos." (Tradução de Sabino Ahumada)

<< Voltar