Prêmio de risco da Espanha sobe ao nível mais alto desde criação do euro

Valor Econômico - 17/06/2010
David Oakley, Financial Times

Os rendimentos dos bônus espanhóis atingiram ontem seu maior nível sobre os títulos da Alemanha desde o lançamento do euro. Isso ocorreu porque aumentaram muito os temores quanto à capacidade dos bancos do país de pagar suas dívidas.

As dúvidas crescentes em relação à Espanha levaram o banco central do país a anunciar que vai divulgar os resultados dos "testes de estresse" realizados nos bancos espanhóis - abrindo as contabilidades numa tentativa de acalmar os mercados -, pressionando outras autoridades reguladoras a fazerem o mesmo.

Os problemas da Espanha enfraqueceram ontem o sentimento em relação a outras economias periféricas da zona do euro, como Grécia e Portugal. Mas a Espanha continua sendo a maior preocupação para a maior parte dos investidores, por ser uma economia muito maior - a quarta maior da zona do euro.

Os rendimentos dos bônus espanhóis de 10 anos, que têm uma relação inversa com os preços, subiram 12 pontos-base para 4,85% ontem, o maior nível desde julho de 2008, levando os spreads sobre os Bunds alamães para 221 pontos-base - o maior desde o advento do euro em janeiro de 1999.

A maior aversão ao risco de investidores em relação aos papéis de países da União Europeia fica clara também quando se observa o comportamento dos CDS (credit defaults swaps), que medem o prêmio em relação à Libor exigido pelo investidor para aplicar em papéis soberanos de cada país. No caso da Espanha, esse "spread" subiu ontem para 258,2 pontos base sobre a libor, ante 248,3 pontos na véspera. No início deste ano, esse spread era de 112,8 pontos (veja o gráfico acima). Esse ambiente de cautela teve efeito sobre CDS de outros países da região.

Harvinder Sian, estrategista sênior de avaliações europeias do Royal Bank of Scotland (RBS), disse: "O problema para a Espanha é que os investidores ainda não estão confiantes em assumir riscos com a dívida do país, muito embora exista uma linha de crédito de estabilidade europeia. As chances da Espanha vir a precisar de ajuda estão aumentando, e isso por causa da fragilidade do sistema bancário, que está tendo dificuldades para rolar suas dívidas".

O RBS estima que as obrigações totais espanholas em mãos de investidores internacionais é de € 1,5 trilhão (US$ 1,84 trilhão), ou 142% do PIB do país, dos quais € 770 bilhões vêm de bancos espanhóis, sendo metade desse total de curto prazo.

As preocupações com a Espanha foram reforçadas por informações da imprensa espanhola de que a União Europeia, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Tesouro dos Estados Unidos estão elaborando uma plano de liquidez que envolve uma linha de crédito de até € 250 bilhões.

Uma reportagem publicada pelo "Financial Times", afirmando que os bancos espanhóis estão dependendo mais de financiamentos do Banco Central Europeu (BCE), que subiram para níveis recordes segundo pesquisa do RBS e da Evolution, também contribuiu para piorar o sentimento em relação ao país.

Mas abrir a contabilidade dos bancos poderá aliviar essas pressões - funcionários do governo espanhol disseram que os investidores internacionais estão temerosos demais com a situação do sistema financeiro do país.

Em outros países, a Grécia registrou novas altas elevadas nos rendimentos de seus bônus de 10 anos, que avançaram 26 pontos-base para 9,33%, quase 2 pontos percentuais mais altos que os níveis mais baixos registrados pouco depois do anúncio do pacote internacional de ajuda de € 750 bilhões e do program de compra de bônus soberanos pelo BCE.

Os rendimentos dos bônus portugueses subiram 15 pontos-base para 5,56%, mas o sentimento foi ajudado pelo sucesso relativo de um leilão de títulos de nove meses de prazo.

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