Mudança cambial da China terá efeito limitado, dizem analistas

Valor Econômico - 21/06/2010
Mark Gongloff, The Wall Street Journal

O anúncio da China de que vai deixar sua moeda flutuar vai, provavelmente, dar um estímulo de curto prazo a ativos de risco como ações e títulos de dívida de empresas. Mas os efeitos podem ter vida curta, na medida em que as questões de mais longo prazo tomem a frente.

Para começar, a tendência é de que os investidores voltem rapidamente o foco aos sinais de crescimento econômico lento dos Estados Unidos e às preocupações em relação às dívidas soberanas.

"O ajuste no câmbio sinaliza o aumento da confiança da China no futuro da economia global e a ação estimula a demanda na economia mundial", aponta o estrategista e gestor da Pacific Investment Management Anthony Crescenzi. "Embora positiva para os ativos de risco, qualquer reação expressiva deve acabar sendo enfraquecida porque outros fatores macro são mais importantes no momento."

Esses fatores, provavelmente, estarão na cabeça das autoridades monetárias do Federal Reserve, o banco central americano, nesta semana, quando elas se encontrarem para discutir a taxa básica de juros, a taxa de empréstimo de curto prazo cobrada pelos bancos e que influencia os custos de crédito em toda a economia.

O Fed tem mantido a meta numa faixa que vai de 0% a 0,25% desde dezembro de 2008 e poucos analistas esperam que vá elevá-la no futuro próximo. É quase certo que isso não acontecerá na reunião desta semana, para a qual a maioria dos profissionais não prevê nem que o Fed dará indícios de que fará aumentos em breve.

No mercado de futuros, onde investidores fazem apostas sobre a política monetária do banco central, uma alta de juros não está embutida no preço dos ativos até pelo menos o primeiro trimestre de 2011. De fato, economistas estão começando a sussurrar sobre a possibilidade de que o Fed possa começar a relaxar a política novamente voltando a comprar ativos de longo prazo, como títulos imobiliários e papéis do Tesouro, depois dos sinais recentes de que a economia está perdendo fôlego.

"Acho que é muito óbvio que a economia está agora perdendo força", disse Jeffrey Saut, estrategista-chefe de mercado da Raymond James Financial.

Isso, junto com a ameaça de um novo estouro de dívida soberana na Europa e incertezas em relação à regulamentação financeira nos EUA, está ajudando a manter as ressalvas de Saut, um dos primeiros investidores a apostar na alta do mercado em 2009.

A crise na Europa é um lembrete de que o tamanho do governo, que teve um papel importante na ajuda das economias globais e na recuperação do mercado, não é ilimitado.

Os governos no mundo todo estão se sentido obrigados a controlar os seus gastos e seus empréstimos. Com a demanda por crédito por indivíduos, bancos e corporações tendendo a se manter relativamente baixa no futuro próximo, qualquer desaceleração dos gastos do governo poderia significar crescimento econômico mais lento.

Uma economia mais fraca vai manter a política frouxa do Fed, o que significa que as valorizações no mercado são sempre possíveis. Taxas baixas fazem com que o dinheiro não renda nada, desistimulando os investidores a ficar de lado e forçando-os em direção a ativos de maior risco.

O índice Dow Jones saltou 71%, do piso atingido em março de 2009 ao pico de abril de 2010, estimulado por baixas taxas de juros.

Mas uma economia mais fraca também reduz o lucro das empresas e aumenta o risco de que elas deixem de pagar dívidas, o que implica em preços mais baixos para as ações e para os títulos de dívida.

Essa competição de forças opostas significa que, apesar da alta do Dow Jones, o índice ainda não conseguiu ultrapassar os níveis de antes da colapso do Lehman Brothers, em 2008. E levando em conta a rapidez e a força do última onda de altas, uma repetição é cada vez mais difícil.

Os retornos dos títulos de dívida, enquanto isso, estão bem acima dos níveis de antes da crise do Lehman, sugerindo que há ainda menos espaço para uma corrida. A valorização desses títulos foi em grande parte ajudada pelo enorme programa do Fed de compra de títulos de dívida imobiliária, que levou os investidores a buscar ativos de dívida de maior risco. Mas a ajuda acabou no primeiro trimestre.

"Minha opinião é que o mercado ficará volátil por um bom tempo", disse Alan Ruskin, estrategista da RBS Securities. "O lado mais otimista precisa que a recuperação se prove e não acredito que ela vá fazer isso de forma enfática."

É claro, um mercado volátil não é a mesma coisa de um mercado indo diretamente para baixo.

Estrategistas do Morgan Stanley que acompanham ao mesmo tempo várias classes de ativos disseram aos clientes na semana passada que esperam que os papéis de maior risco fiquem presos a uma faixa limitada de negociação "talvez por anos", mas também disseram que altas fortes de curto prazo eram possíveis - e que acreditam que uma dessas pode ser estar em início de processo agora.

"No curto prazo, os mercados podem ter resultados melhores do que os investidores esperam", escreveram eles.

Os investidores certamente caminharam nas pontas dos pés de volta aos ativos de maior risco nos últimos dias, na medida em que correção de maio perdeu força. O Dow subiu 2,3% na semana passada e está 6,5% acima do piso do começo do mês. A rentabilidade dos ativos de maior risco também está acima do ponto mais baixo.

Ontem, o presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, disse que uma maior flutuação do yuan é um fato "bem-vindo". "Demonstra a disposição do governo da China de contribuir para um maior equilíbrio econômico global", disse Meirelles, por meio de sua assessoria.


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