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O câmbio chinês é um tigre de papel
Valor Econômico - 24/06/2010 José Roberto Campos
A China é um gigantesco parque multinacional de produção industrial. Ela hospeda as principais multinacionais do mundo e seus enormes superávits comerciais são o resultado de exportações "triangulares" de países que aproveitam suas excepcionais condições de mão de obra barata, escala crescente e mercado doméstico de alto potencial para vender suas mercadorias pelo mundo afora. O câmbio desvalorizado chinês é a cereja do bolo, uma atração a mais para seduzir capitais externos, sem os quais a China, mesmo com sua extraordinária taxa de poupança, não teria o desenvolvimento veloz que deixa o planeta surpreso.
A insistência americana para que a China valorize seu câmbio é em boa parte ideológica e tosca. Para corrigir os enormes superávits em conta corrente chineses é talvez menos relevante ter um yuan mais forte do que elevar a poupança doméstica americana. A história dos gigantescos saldos em conta corrente da China - US$ 1,75 trilhão dos US$ 2,5 trilhões de reservas foi acumulado em apenas quatro anos - coincide com a gestação da crise financeira dos EUA. Dos pequenos resultados positivos até 2004, salta-se para US$ 160,8 bilhões em 2005, em um crescendo até o recorde de US$ 426 bilhões em 2008, quando a farra do subprime acabou e quase destruiu o sistema financeiro dos EUA e Europa.
São os superávits comerciais chineses que garantem o grosso do avanço dos saldos em conta corrente, com os volumosos investimentos diretos correndo em segundo lugar. Mas o déficit americano com a China é na verdade uma exceção - a China tem déficit comercial com o resto dos países do G-20. Nas trocas com a China em 2009, o Japão, por exemplo, foi superavitário em US$ 45,1 bilhões e a Coreia do Sul em US$ 59,1 bilhões.
Disso não decorre que a única vantagem chinesa seja o câmbio, embora ela seja bastante relevante. Um dado crucial é a participação das multinacionais nas exportações chinesas. Navegando pelo cipoal do Anuário Estatístico chinês de 2009 é possível ver que em 2007 empresas estrangeiras operando no país venderam ao mercado externo 55,6% - US$ 695 bilhões - das exportações totais de US$ 1,25 trilhão. Nesse ano, o superávit em conta corrente chinês chegou ao recorde de 11% do Produto Interno Bruto. Em 2008, a proporção se manteve - US$ 790,5 bilhões de um total de US$ 1,41 trilhão.
Dessa forma, as exportações de multinacionais dos EUA instaladas na China para seu país, por exemplo, podem até ser notáveis, mas arruínam as estatísticas americanas. Ou, por outro lado, as empresas americanas ganham na China, se tornam mais robustas, remetem lucros e dividendos a seus acionistas nos EUA, mas isso não aparece à luz do dia como contrapartida, ainda que parcial, do déficit no comércio. Boa parte do vaivém das pressões americanas contra a China, que nunca chegam a se materializar, tem esse substrato econômico por pano de fundo.
O que se convencionou chamar de desequilíbrio estrutural da economia global, com a China acumulando enormes superávits e os EUA, déficits, foi, então, construído em pouco mais que um par de anos, os da farra do crédito e de consumo nos EUA e Europa. As chances de os chineses valorizarem rapidamente sua moeda para consertar essa situação são nulas. No curto prazo, o euro está se desvalorizando em relação ao dólar, e os países da Europa são os principais clientes dos chineses, seguidos pelos EUA, Japão e o resto do Sudeste Asiático. Com isso, o yuan já está se valorizando em relação ao euro. Também no curto prazo, a redução das exportações chinesas via câmbio, como reivindicado pelos EUA, implica queda das importações, que na maior parte alimentam as vendas externas. A participação da corrente de comércio no PIB chinês foi de 59,8% em 2008.
O que o câmbio valorizado chinês faz, e isso sim é estrutural, é acomodar uma enorme ineficiência na alocação de recursos. Segundo Yiping Huang, do Centro de Pesquisa Econômica da Universidade de Pequim, todo o crédito está em mãos do sistema estatal e ele é dirigido para subsidiar a produção, deprimindo a renda familiar, que recuou nos últimos anos de 57% para 40% da riqueza nacional. Pelos seus cálculos, as rentáveis e capitalizadas empresas chinesas recebem subvenções equivalentes a 7% do PIB.
É isso que alimenta o paradoxo chinês, em que o custo do capital é muito baixo e a taxa de emprego avança em velocidade mínima, mesmo com o furioso crescimento, na casa dos 10%, por mais de uma década. A média anual de avanço do emprego desde 2000, quando a produção na China realmente explodiu, até 2008, foi de 0,9% ("China Statistics Yearbook", 2009).
Nesse contexto, um redirecionamento do câmbio pode de fato estimular o gigantesco mercado doméstico potencial, mas ele é só uma peça, ainda que relevante, do quebra-cabeça chinês. Os líderes do Partido Comunista são negociadores hábeis e, ao verem a maré montante das pressões caminhar em direção a seu sistema cambial, polidamente concordaram em voltar ao câmbio atrelado a uma cesta de moedas, como o que prevaleceu de julho de 2005 a julho de 2008. Eles farão o que já vêm fazendo há muito tempo, à sua maneira, seguindo seus próprios interesses, mas dando a impressão cortês de que estão sensibilizados com os pedidos de alguns de seus colegas do G-20.
José Roberto Campos é editor-executivo e escreve quinzenalmente às quintas-feiras. E-mail: jose.campos@valor.com.br http://www.valoronline.com.br/?impresso/brasil/89/6339601/o-cambio-chines-e--um-tigre-de-papel&scrollX=0&scrollY=84&tamFonte=
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