China terá de explicar a parceiros sua intenção com reforma cambial opaca

Valor Econômico - 25/06/2010
Geoff Dyer, Financial Times, de Pequim

A China disparou uma bomba no sábado passado, quando anunciou o fim dos seus dois anos de paridade com o dólar e, com isso, pareceu eliminar o risco de que a batalha em torno de seu câmbio poderia transformar-se numa guerra comercial.

No entanto, perto do fim da primeira semana de negócios sob o novo regime cambial, o yuan só se valorizou 0,39% frente ao dólar. Quando o banco central chinês disse que não haveria quaisquer movimentos dramáticos no câmbio, evidentemente, não estava brincando.

A declaração no fim de semana foi propositadamente vaga, mas um dos aspectos interessantes é a maneira como muitas pessoas dentro e fora do país dela tiraram conclusões muito diferentes.

A reação de outras capitais do G-20 foi positiva. Depois que um conselheiro do banco central qualificou (a decisão sobre o câmbio) de fim das políticas "anticrise", a suposição era de que a China retomaria seu regime pré-crise de minivalorizações do yuan em relação ao dólar.

Os suspiros de alívio não vêm só Tim Geithner, o secretário do Tesouro americano, que enfrentava um Congresso queixoso e crescentes pressões para declarar a China uma "manipuladora de moeda". A perspectiva de um yuan forte foi também uma boa notícia em muitas outras capitais do mundo em desenvolvimento. Alguns desses países vêm implementando controles de capital para evitar que suas moeda se valorizem com excessiva rapidez, ao mesmo tempo em que veem a concorrência de empresas chinesas ficar cada vez mais acirrada. As exportações da China para o Brasil, para a Rússia e para a região da Asean cresceram 110%, 92% e 48% em maio, em relação ao mesmo mês do ano passado.

Mas, domesticamente, a decisão foi encarada de modo algo distinto em muitos círculos. Nos últimos meses, o Ministério do Comércio vinha conduzindo uma batalha para evitar totalmente qualquer valorização em relação ao dólar - um dos vice-ministros chegou ao ponto de advertir, no início deste ano: "A água não ferve quando aquecida a 99ºC. Mas ferverá, se for aquecida um grau a mais".

Mas até agora, nesta semana, a reação foi positiva.

Uma razão é que ele enxergou o anúncio sob uma ótica distinta, assumindo que o banco central está se pronunciando literalmente, ao referir-se a uma taxa de câmbio mais "flexível" - em outras palavras, a moeda pode tanto descer como subir.

Mei Xinyu, pesquisador do ministério, disse ontem que a oposição a uma apreciação de até mesmo 2% a 3% permanece forte. "Seria um grande revés para nossa indústria intensiva em mão de obra", disse ele. Mas a mudança da política cambial para um regime mais flexível foi uma coisa boa, acrescentou ele, porque "os exportadores chineses já tiveram de arcar com os encargos de depreciação outras moedas", numa referência à queda no valor do euro, a moeda do maior mercado importador da China.

Sua mensagem foi a seguinte: embora os governos estrangeiros possam ver a nova política cambial como um passaporte para um yuan mais forte, o lobby exportador chinês está acolhendo-a como uma forma de proteger-se de um euro mais fraco. Esses objetivos poderão colidir.

Parte dessa confusão contaminará a cúpula do G-20. O comunicado chinês no fim de semana foi em grande parte destinado a tirar o yuan da mesa durante a cúpula e chamar a atenção para o que a China vê como o principal problema da economia global: governança inadequada nos EUA. Mas, após desvelar uma mudança de política cambial tão opaca, a China será ao menos alvo de muitas indagações sobre quais quais são suas reais intenções.

Além disso, a nova política cambial chinesa não descartou inteiramente as perspectivas de um confronto político. O ponto de ignição óbvio surgirá se o euro se desvalorizar substancialmente outra vez. Os exportadores chineses desejarão que sua moeda se desvalorize frente ao dólar, mas isso, sem dúvida, provocaria reações iradas em Washington e em outras capitais.

O mesmo poderá acontecer se o superávit comercial chinês voltar a crescer explosivamente na segunda metade do ano, algo possível se as exportações continuarem a se recuperar e as importações diminuírem, devido ao esfriamento do enorme crescimento dos investimentos ocorrido no ano passado.

O êxito diplomático de Pequim permitiu-lhe ganhar algum tempo, mas o conflito subjacente não desapareceu.

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