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Desafio de 2011 será garantir recursos para economia real Entrevista: Marcelo Giufrida, da Anbima
Valor Econômico - 30/06/2010 Denise Bueno, para o Valor, de São Paulo 30/06/2010
Análise: Presidente da Anbima diz que a indústria brasileira é hoje referência global para a regulação
A indústria brasileira de fundos hoje é a sexta maior do mundo, com ativos próximos de R$ 1,5 trilhão, e reconhecida internacionalmente, graças à modernização do arcabouço regulatório feita nos últimos dez anos, uma referência internacional, e aos profissionais que souberam responder aos desafios da crise financeira global. Assim o presidente da Associação Nacional dos Bancos de Investimento e Mercado de Capitais (Anbima), Marcelo Giufrida, resume o panorama do setor.
Para 2011, o grande desafio será prover recursos e liquidez que contribuam para o financiamento da economia real, principalmente para as obras de infraestrutura necessárias para dar sustentabilidade ao crescimento do país, já projetado em 7,5% para 2010. Veja os principais trechos da entrevista de Marcelo Giufrida.
Valor: Como o Sr. vê a indústria de fundos no Brasil comparada aos principais mercados mundiais? Marcelo Giufrida: Temos hoje a sexta maior indústria do mundo. Nossa indústria está preparada para oferecer aos investidores de forma segura e eficaz uma grande variedade de produtos. Nosso desempenho durante as últimas crises também colocou em evidência duas características importantes da indústria de fundos brasileira e que contribuíram para que os fundos brasileiros tivessem um desempenho muito positivo à luz do que ocorreu nos demais países. Somos um segmento muito bem regulado. Sujeito ao monitoramento e à supervisão tanto dos órgãos públicos quanto da Anbima, que atua como regulador privado voluntário. A crise também revelou o preparo dos gestores brasileiros.
Valor: Quais os principais desafios para a indústria de fundos mundial em 2010 e 2011. Giufrida : Temos dois cenários muito distintos quando olhamos para o mundo e para o Brasil. Globalmente, o setor financeiro está buscando respostas para a demanda do público por maior regulação de suas atividades, e isso inclui a indústria de fundos. Esse não é um problema no Brasil, que, como já disse, tem uma indústria bem regulada e que tem, inclusive, se tornado referência internacional. Temos outros grandes desafios, claro. Como instrumento de alocação de parte importante da poupança nacional, a indústria de fundos tem um papel relevante tanto para oferecer opções adequadas de investimento aos brasileiros, quanto para prover recursos e liquidez que contribuam para o financiamento da economia real.
Valor: A indústria de fundos brasileira já se recuperou totalmente dos efeitos da crise de 2008? Giufrida : Deixamos a crise para trás já há algum tempo. Estudos de consultorias internacionais mostram que, em 2008, por conta da desvalorização dos ativos e resgates, a queda média de patrimônio dos fundos em todo o mundo foi de 24%, enquanto no Brasil ficou praticamente estável. No início de 2009 os fundos voltaram a captar. Mas o mais relevante em relação ao comportamento da indústria de fundos nessa crise não está explícito no movimento de captações. O mais importante é que nossa indústria mostrou alto grau de maturidade e preparo, e que nossas instituições e regulamentação provaram-se adequadas para enfrentar aquele cenário.
Valor: Como a crise da Europa pode afetar a indústria brasileira de fundos ? Giufrida : Há ainda muitas incertezas a respeito de como a crise evoluirá e de como ela responderá às políticas desenhadas para combatê-la. Turbulências no mercado internacional e o consequente aumento da volatilidade nos preços dos ativos sempre podem ter impacto sobre a economia brasileira e, portanto, sobre a indústria de fundos. Esse, no entanto, não parece ser o cenário mais provável. Pelo contrário, o Brasil tem enfrentado o bom problema de lidar com uma economia que está crescendo a taxas altas.
Valor: O que precisa ser mudado em termos de regulamentação na indústria de fundos no Brasil para atrair mais investidores ? Giufrida : Temos uma indústria muito bem regulada, que oferece aos investidores segurança jurídica, diversidade de produtos e excelência de gestão. Há pontos em que precisamos avançar sempre. Poderíamos destacar, por exemplo, a necessidade de aprimoramentos na estrutura tributária, de forma a preservar a neutralidade dos impostos em relação à decisão de investimento. Um exemplo é o caso dos investidores estrangeiros que, quando ingressam diretamente no Brasil para adquirir ações ou títulos públicos, são isentos de IR no rendimento. Já um fundo para esses mesmos investidores que tenha em sua carteira ações e títulos públicos não goza deste mesmo benefício.
Valor: Qual o impacto da alta da Selic na indústria de fundos ? Giufrida : O movimento de alta da Selic é conjuntural. Ele tem efeitos importantes na alocação de recursos das carteiras dos fundos, mas não acreditamos que essa recente alta interrompa um movimento de mais longo prazo, de queda das taxas por conta da melhora das condições econômicas do Brasil. Esse movimento de longo prazo tem efeitos mais duradouros e estruturais para a indústria do que as pequenas altas e quedas conjunturais. No longo prazo, o que o comportamento da indústria tem demonstrado é uma crescente sofisticação, com os gestores buscando por ativos e estratégias que atendam às preferências de risco e retorno dos investidores. Nas carteiras dos fundos, essa tendência se revela na crescente participação de títulos privados, que era de 25% em 2001, e chegou a 38% em maio.
Valor: Quais os ensinamentos da crise passada que devem ser absorvidos pelos investidores hoje? Giufrida : Uma lição muito relevante está associada ao valor da transparência. Se ainda havia dúvidas acerca da relação positiva entre transparência e solidez dos mercados, certamente se dissiparam após a última crise. O nível de desconhecimento de reguladores e investidores sobre os volumes e modalidades de operações do tipo subprime foi certamente um fator de amplificação do pânico. No Brasil, onde os portfólios são monitorados permanentemente pelos reguladores, dificilmente um tipo específico de ativo ou operação poderá desencadear uma crise sistêmica.
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