Bancos mostram força com empréstimos ao BCE abaixo do previsto
Valor Econômico - 01/07/2010
Gabi Thesing, Bloomberg
O Banco Central Europeu (BCE) anunciou ontem que vai emprestar aos bancos da zona do euro € 131,9 bilhões (US$ 161,5 bilhões) por três meses, menos que o previsto por economistas e um sinal de que o setor financeiro da região pode estar mais forte do que o estimado pelos investidores. Os bancos precisam pagar hoje € 442 bilhões (US$ 539 bilhões) em recursos de 12 meses, a maior quantia já outorgada pelo BCE e uma peça-chave em seus esforços para combater a crise financeira do ano passado. A demanda por recursos de três meses, ontem, foi teste decisivo à saúde do sistema bancário da Europa, segundo economistas.
A demanda foi "surpreendentemente baixa e certamente bem menor que os mercados esperavam", disse Nick Kounis, principal economista europeu do Fortis Bank, de Amsterdã. "Isso sugere que, embora existam tensões no sistema em algumas regiões, no geral ele não está tão mal quanto muitas pessoas pensam."
As ações dos bancos europeus subiram ontem, depois do anúncio e os contratos futuros de ações nos Estados Unidos ampliaram seus ganhos. O euro subiu mais de meio centavo, para US$ 1,2290.
As instituições financeiras estão cautelosas em emprestar umas às outras, depois que a crise das dívidas soberanas europeias alimentaram temores de que alguns governos poderão ter dificuldades para refinanciar suas dívidas, o que levou investidores a evitar os bônus vendidos por países como Grécia, Portugal e Espanha. O BCE não está mais oferecendo empréstimos de 12 meses para os bancos, mas a crise da dívida o forçou a ampliar algumas de suas medidas atípicas e a começar a comprar os bônus de governos com grandes déficits.
O BCE, sob o comando de Jean-Claude Trichet, continua a emprestar aos bancos os volumes de dinheiro que eles quiserem, pela sua taxa referencial de 1% e períodos de até seis meses. Ele disse que 171 bancos solicitaram ontem recursos por três meses. Os bancos atualmente tomam dinheiro por três meses uns dos outros, no mercado, com taxa de cerca de 0,76%.
Eliminar a linha de crédito de 12 meses era parte da estratégia de saída de longo prazo do BCE e o banco tomou "todas as precauções" para evitar um aperto da liquidez, disse na terça-feira em Viena Ewald Nowotny, membro do conselho diretor do BCE.
"Muita coisa dos € 442 bilhões originais foi tomada por bancos que não precisavam do dinheiro, bancos que viram uma oportunidade para arbitragem", diz Patrick Jacq, diretor da estratégia de juros do BNP Paribas em Paris.
O BCE inundou o sistema financeiro com dinheiro barato depois do colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008, para destravar os mercados de crédito e ajudar a tirar a economia da maior recessão desde a Segunda Guerra Mundial.
Os empréstimos de ontem poderão levar a um aumento do custo dos empréstimos no mercado de curto prazo, uma vez que há um excesso menor de dinheiro no sistema, disseram analistas do Commerzbank. Com o "excesso de liquidez desaparecendo", a percepção é de que as condições monetárias "estão apertando", disse Christoph Rieger, estrategista de juros do Commerzbank em Frankfurt.
Mesmo assim, a baixa participação no leilão de três meses é algo que desvia as atenções, uma vez que os bancos europeus poderão ter acesso a recursos ilimitados do BCE em vários outros leilões que acontecerão até outubro e provavelmente além, disse Simon Maughan, analista bancário da MF Global Securities em Londres.
"Além disso, o benefício do dinheiro barato ilimitado é que você pode usá-lo para operações de 'carry trade' e jogar com a curva de rendimento", acrescentou ele. "No momento, todas as incertezas que existem sobre a Espanha, Grécia e Portugal significam que você não vai querer fazer isso."