Crise econômica fragiliza principais governos da UE

Valor Econômico - 06/07/2010
Marcus Walker, Sebastian Moffett e Jonathan House,
The Wall Street Journal, de Berlim, Paris e Madri

Insatisfação: Medidas impopulares derrubam aprovação a líderes europeus

Os líderes políticos europeus estão perdendo popularidade e autoridade em casa, enquanto buscam soluções para a crise da dívida da zona do euro e para as perspectivas de um crescimento econômico raquítico.

Efeitos adversos da crise, junto com problemas domésticos, têm atormentado governos em Berlim, Paris e Madri, e até mesmo afetado a popularidade do premiê "teflon" da Itália, Silvio Berlusconi.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, perdeu dois ministros no domingo por causa de escândalos com despesas, justamente num momento em que o apoio ao seu governo está em queda, acompanhando a desaceleração econômica e as medidas de austeridade adotadas. A premiê alemã, Angela Merkel, está lutando com dificuldades para mudar a percepção de que seu governo, eleito no final do ano passado, está dividido e sem rumo. E o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, está com dificuldades para aprovar cortes impopulares no orçamento, sem uma maioria estável no Parlamento.

"Todos esses governos estão sendo forçados a fazer cortes impopulares [de gastos] por uma crise financeira internacional que está fora do controle das autoridades nacionais, e isso está prejudicando a imagem dos governos", diz Jan Techau, analista de política internacional do Colégio de Defesa da Otan, em Roma.

Os governos da zona do euro foram afligidos por uma série de desafios econômicos, reforçados pela crise da dívida grega e por suas consequências de um lado a outro da Europa.

Fortalecer as regras fiscais da zona do euro, reparar as combalidas finanças públicas na região e melhorar a competitividade econômica de alguns países implica realizar reformas há muito adiadas nas leis trabalhistas e nos sistemas de benefícios sociais.

Em toda a zona do euro, cortes de gastos e de subvenções causam choques e provocam raiva e protestos dos sindicatos trabalhistas.

Escândalos e descuidos políticos enfraqueceram a capacidade de alguns líderes europeus de convencer os seus cidadãos de que medidas dolorosas fazem parte de uma estratégia para criar uma economia mais forte no futuro.

Um alento para os líderes das principais economias da zona do euro é que nenhum deles enfrentará eleições nacionais antes de 2012 - e, no caso de Berlusconi, seus rivais políticos continuam fracos.

No mês passado, o governo Sarkozy informou que vai cortar os gastos públicos franceses em

Ontem, Alain Joyandet, o secretário de Estado para desenvolvimento internacional da França, renunciou depois de admitir que contratou um jato particular por € 116.500 para voar para o Caribe a negócios, quando poderia ter pego um voo regular.

Christian Blanc, secretário de Estado para a região de Paris, também pediu demissão depois de admitir que gastou 12 mil em dinheiro dos contribuintes para comprar charutos - e que fumou, ele mesmo, um terço dos charutos. O governo determinou que ele deve cobrir a despesa por completo.

Sarkozy está se mexendo para dar ao seu governo uma imagem mais frugal, na tentativa de vender os cortes orçamentários. Este ano, ele cancelou caçadas presidenciais e a tradicional festa de 14 de julho no jardim do Palácio do Eliseu. Embora ainda tenha dois anos antes de tentar a reeleição, analistas dizem que ele tende a suavizar as propostas quando a oposição popular fica muito forte, e pode fazer isso de novo.

Na Itália, a taxa de aprovação de Berlusconi caiu para 41%, ante mais de 50% no ano passado, por causa de escândalos sobre questões pessoais e legais do premiê.

A coalizão de centro-direita de Berlusconi obteve uma vitória convincente nas eleições regionais de março, mas, desde então, cresceu o descontentamento com um pacote de austeridade que prevê cortes de € 25 bilhões até 2012. Os cortes propostos enfrentam resistência dos legisladores de centro-direita e dos governadores regionais, assim como dos sindicatos trabalhistas.

Berlusconi sofreu um golpe na segunda-feira, quando seu ministro para o federalismo, Aldo Brancher, renunciou apenas duas semanas depois de ter sido indicado pelo líder italiano, em meio a acusações de que estaria usando o cargo público para se proteger de um julgamento por corrupção.

A premiê alemã Angela Merkel, no comando da maior economia da Europa, também viu as taxas de aprovação caírem para menos de 40%, ante mais de 50% no começo de maio, quando concordou com o plano europeu para socorrer a Grécia. Antes disso, ela tinha garantido aos eleitores alemães que a Grécia não precisava ser resgatada.

A revolta popular dos alemães por terem de socorrer os países em dificuldades no sul do continente machucou ainda mais um governo assolado por disputas internas. Alguns políticos que participam da coalizão de Merkel estão pedindo que a premiê exerça uma liderança mais firme, alegando que o estilo discreto dela está permitindo que surjam divisões e indisciplina.

Na semana passada, a coalizão precisou de três rodadas de votação num colégio eleitoral para garantir a maioria dos votos para eleger o seu próprio candidato à Presidência alemã, Christian Wulff. Isso foi visto com um grande motivo de vergonha para Merkel e como sintoma de um problema maior.

"Merkel não inspira, não provoca a união. Ela não tem uma estratégia que não seja permanecer no poder e fazer as coisas da melhor forma que conseguir", afirma Josef Joffe, um importante cientista político e editor do jornal alemão "Die Zeit".

Um dos líderes políticos mais fortes da Europa é o primeiro-ministro grego, George Papandreou, cujo governo socialista tem uma maioria indiscutível no Parlamento, ainda que por uma pequena margem. Apesar de terem conseguido aprovar cortes profundos no orçamento em meio a grandes protestos de rua, os socialistas gregos ainda são mais populares que seus rivais, segundo as pesquisas.

Zapatero, o líder socialista espanhol, está parecendo menos seguro desde que seu governo conseguiu aprovar em maio, no Parlamento, cortes orçamentários por uma diferença de apenas um voto. Ele garantiu ao público que novos cortes não seriam necessários, mas a piora da crise da dívida na zona do euro e a pressão de líderes da Europa e dos Estados Unidos o forçaram a voltar atrás. Líderes de oposição acusaram Zapatero de entregar a soberania econômica espanhola à União Europeia.

Os sindicatos espanhóis convocaram uma greve geral para 29 de setembro, para protestar contra as reformas de flexibilização do mercado de trabalho.

A maioria da população espanhola elegeria o oposicionista Partido Popular, de centro-direita, se as eleições fossem hoje, segundo pesquisas de intenção de voto.

O próximo grande teste de Zapatero será o orçamento da Espanha para 2011, que o Parlamento precisa aprovar até o fim deste ano. O seu mandato de quatro anos termina no fim de 2012, mas alguns analistas dizem que ele poderia pedir a antecipação das eleições caso não consiga aprovar o orçamento.

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