Dentro da jovem Anbima, choque de interesses dificulta integração

Valor Econômico - 09/07/2010
Carolina Mandl, de São Paulo

Mercados: Eleição divide associados da Andima e da Anbid, que se fundiram em outubro

Até outubro do ano passado, a distância entre a Anbid (Associação Nacional dos Bancos de Investimento) e a Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Financeiro) era de apenas dez andares em um prédio na marginal Pinheiros, em São Paulo. Mas a tarefa de uni-las em torno da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) tem mostrado que a distância que as separava ia muito além dos lances de escada.

Os móveis já estão redistribuídos entre os andares que eram das duas associações, porém os 325 associados da Anbima, criada em outubro, ainda buscam impor seu espaço na nova entidade, que tem sob sua tutela mais de R$ 1,5 trilhão de recursos sob gestão. Na construção da nova associação, os choques entre os integrantes das antigas Anbid e Andima têm sido frequentes.

       

O teste final da integração virá em agosto, quando os associados vão eleger a nova diretoria da Anbima. A ideia é buscar um consenso em torno de uma chapa única, encabeçada por Marcelo Giufrida, presidente Anbima e ex-presidente da Anbid. Mas pessoas que vieram da Andima já falam - até como uma forma de barganha para buscar mais espaço na direção - na criação de uma composição concorrente.

O estranhamento entre os associados começou logo depois do anúncio do novo corpo técnico da Anbima, em novembro do ano passado. Para o cargo de superintendente-geral, que equivale a uma espécie de presidente operacional, nomeou-se Luiz Kauffman, que era o antigo chefe da Anbid. Abaixo dele, estão outros três superintendentes, um da Anbid e dois da Andima. Descontente com a nova estrutura, um deles, Paulo Sampaio, ligado à Andima, pediu demissão. O quadro revertido depois, com propostas de melhor remuneração e ampliação de suas funções. Marcos Albino, um diretor associado que veio da Andima e participava do comitê de integração na Anbima, também decidiu sair, alegando informalmente estar decepcionado com os novos rumos da associação.

Para tornar o clima mais nebuloso, vieram as notícias de demissão das áreas operacionais, como administração e tecnologia. Foram 42 cortes, sendo que 34 demitidos eram originalmente da Andima. "Criou-se o sentimento de que a Andima está sendo preterida na associação", diz um associado.

Essa impressão, porém, é negada por Giufrida. "Os cortes foram feitos buscando o melhor resultado para a Anbima. Uma consultoria de recursos humanos foi contratada para indicar o novo formato da entidade. É união, não tem predominância. Nem Anbid nem Anbima perderam seus programas", afirma ele.

Criadas praticamente na mesma época, há cerca de 40 anos, com objetivos distintos, ambas as associações acabaram se cruzando no meio do caminho - por isso a união -, mas elas sempre foram encaradas pelo mercado e pelas autoridades de formas distintas.

A Anbid nasceu para representar os bancos de investimento, enquanto a Andima tinha como foco as operações com títulos públicos. Mas, ao longo das décadas, o mercado mudou e cada vez mais elas passaram a convergir em seus raios de ação. De um lado, os bancos de investimento independentes perderam espaço. De outro, no governo de Fernando Collor, desapareceram as operações overnight com títulos públicos. As transformações do mercado exigiam que as entidades se remodelassem.

Assim, nos anos 90, cada uma acabou encontrando seu nicho. A Anbid, nas gestoras de fundos de investimento e posteriormente também na análise de ofertas públicas. Enquanto a Andima partiu para os títulos de renda fixa privados. Mas, com o tempo, veio a visão de que tudo fazia parte de algo maior, o mercado de capitais e o bancário já não tinham fronteiras claras. Então, por que não unir esforços? Até porque 68 instituições já eram associadas simultaneamente às duas entidades.

Além disso, em diversas situações, as discussões eram as mesmas. Não foram poucos os episódios em que elas se cruzaram. Em 2002, por exemplo, as relações azedaram quando a Andima decidiu arrebanhar os associados da concorrente, as gestoras de recursos independentes. Sentindo-se um pouco excluídas da tomada de decisão na Anbid, dominada pelos grandes bancos, elas decidiram se abrigar na "concorrência". Diante das coincidências de temas, as autoridades, como Comissão de Valores Mobiliários e Banco Central, também passaram a pedir uma centralização das demandas.

Porém, apesar de os objetivos estarem coincidindo mais recentemente, entre os agentes do mercado, sempre ficaram claras as diferenças entre as duas associações. Antes com 243 associados, a Andima era encarada como uma entidade mais plural, com associados de diversos portes, e também mais técnica do que a Anbid. Foi dela, por exemplo, que saiu a criação do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, o Selic, e da Cetip, ambiente de negociação de ativos de balcão. Por outro lado, a Anbid, com 141 integrantes, era percebida como uma associação mais política, ligadas aos grandes bancos, que são os maiores gestores de recursos em fundos.

Dias depois do anúncio da fusão, algumas dessas diferenças começaram a despontar. Em meio à discussão da composição da nova diretoria, da forma de votação e da remuneração do corpo técnico, um tema inusitado invadiu a pauta: o uso da gravata. Enquanto na Anbid até o office boy era obrigado a usar o adereço, na Andima valia o bom senso da ocasião. Por fim, a obrigatoriedade da gravata caiu.

Diferenças à parte, porém, ninguém fala em reverter a fusão. O Valor conversou com cerca de dez associados, diretores e funcionários da Anbima. Nenhum deles reclama de perda de foco da entidade ou de deficiência na sua atuação. "Está claro que o caminho é esse. Era preciso se criar uma única associação, que fosse mais forte", diz um associado da Anbima que pertencia à Andima.

Por enquanto, integrantes da Anbid e da Andima disputam um espaço político, mas dão pistas de que buscam o entendimento para a formação de uma chapa única nas eleições de agosto. De início, previa-se que a nova diretoria teria 18 integrantes. Para acomodar mais gente, no dia 22 de junho, durante assembleia geral, decidiram ampliar o quadro para 23 pessoas. "Fusões nunca são processos simples, mas o importante é que estamos determinados a superar as diferenças", diz Giufrida.

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