Governança passa longe da decisão do investidor

Valor Econômico - 12/07/2010
De olho na bolsa: Alessandra Bellotto

Na semana passada, o Valor publicou um estudo das empresas listadas em bolsa com o maior número de acionistas individuais. Peço licença para usá-lo como referência para uma reflexão acerca do peso da governança na decisão do investidor. Tudo indica que a pessoa física não olha para isso.

Das 20 empresas de maior base acionária, levantamento do diretor do curso de Relações Internacionais da ESPM-RJ, Alexandre Espírito Santo, mostra que 12 fazem parte de algum segmento de governança corporativa. Dessas, duas apenas - Banco do Brasil, com 331 mil investidores individuais, e BM&FBovespa, com 97 mil - estão no Novo Mercado, o mais rigoroso dos níveis. No Nível 2, segmento intermediário, aparecem Eletropaulo, com 56 mil acionistas, e Santander, com 199 mil investidores.

As oito companhias restantes estão no Nível 1. Nesse grupo, destacam-se bancos como Bradesco, com 344 mil acionistas individuais, Itaú Unibanco, com 193 mil, e Banrisul, com uma base de 63 mil. Há ainda a Vale, com 181 mil investidores, a Bradespar (93 mil), a Cemig (110 mil) e as siderúrgicas Gerdau (99 mil) e Usiminas (46 mil).

"Mais empresas poderiam estar em algum nível de governança, mas é melhor do que nada", afirma Espírito Santo, também economista da Way Investimentos. Mas as maiores, destaca, não fazem parte de nenhum segmento, caso das companhias de telefonia Telebrás, Telesp (Telefônica), Tele Norte Leste Participações (Oi), Vivo, Brasil Telecom e Telemar Norte Leste, além de Petrobras e CSN.

Vale uma ressalva: as empresas de telefonia lideram em número de investidores, por conta dos antigos planos de expansão, em que a compra de linha dava direito a ações das companhias. Não foi propriamente uma escolha do investidor, ainda assim as empresas não evoluíram no quesito governança.

A grande restrição é que a listagem num dos segmentos diferenciados abriria a possibilidade de os atuais controladores terem de dividir o prêmio pelo controle (o tag along) pago na privatização das teles. O que é relevante hoje, dado o momento de consolidação por que passa o setor de telefonia.

Já a Petrobras, companhia de maior peso no Ibovespa, está no nível tradicional. "O fato de a principal empresa não fazer parte de nenhum segmento especial é um grande desafio para o mercado brasileiro, uma vez que limita o avanço maior da governança", afirma.

Na visão de Espírito Santo, a criação de regras de governança para a bolsa há cerca de dez anos teve papel fundamental no crescimento do mercado. O momento agora é de revisão das normas e de convencer mais empresas dos benefícios da governança, diz. Entre eles, a redução do custo de capital. Questionada sobre a possibilidade de participar de algum dos segmentos, a Petrobras disse que "está estudando" e "irá avaliar as propostas de mudanças sugeridas pela Bovespa".

Empresas com governança tendem a ter uma melhor relação risco/retorno. Estudo do economista mostra que, entre junho de 2001 e junho de 2010, o Índice de Governança Corporativa (IGC) apresentou retorno esperado médio anualizado de 24,6%, acima dos 20,45% para o Ibovespa, principal índice da bolsa. Já o risco esperado médio anualizado ficou em 26,4% para o IGC e em 28,41% para o Ibovespa.

Dividindo o risco pelo retorno, o coeficiente de variação para o IGC é de 1,07 e para o Ibovespa de 1,39. Quanto menor, melhor a relação risco/retorno. Além de apresentar um melhor retorno esperado, o índice de governança embutia menos risco. "Infelizmente, o ser humano é ganancioso e tende a olhar apenas para o que dá mais retorno." Mas mesmo levando em conta o retorno, o IGC ganha, com alta de 567% de 2002 a 2009, ante variação de 396% do Ibovespa.

O presidente da Rio Bravo, Mario Fleck, concorda que o ideal seria que o investidor olhasse para a estrutura de governança das empresas antes de tomar sua decisão, assim como o gestor profissional. Mas ele destaca que esse deve ser apenas um dos critérios, já que a governança não determina necessariamente o retorno do investimento.

Fleck cita como exemplo as empresas que abriram capital recentemente no Novo Mercado com preços elevadíssimos. "Não tem governança que faça com que empresas caras tenham retornos satisfatórios."

Ele acrescenta que há muitas empresas que não estão em segmentos regulados pela bolsa, mas apresentam bons modelos de governança.

Alessandra Bellotto é repórter de Investimentos. A titular da coluna, Daniele Camba, está de licença.
E-mail: alessandra.bellotto@valor.com.br


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