Achar o preço certo é o segredo da oferta bem-sucedida

Valor Econômico - 19/07/2010
Lina Saigol, Miles Johnson, Martin Arnold e Andrea Felsted, Financial Times, de Londres

Como uma empresa sem nenhum ativo pode ter êxito em levantar milhões de libras na Bolsa de Valores de Londres, enquanto outra, dona de valiosos campos petrolíferos no Mar do Norte, não?

Essa é a questão que atormenta executivos de banco de investimento quando tentam fazer ofertas públicas iniciais de ações em meio à instabilidade dos mercados de capitais.

Na semana retrasada, o Vallar, um veículo de investimentos respaldado pelo investidor Nathaniel Rothschild e James Campbell, ex-chefe da divisão de carvão e metais da Anglo American, levantou 702,2 milhões de libras (US$ 1,1 bilhão) em oferta pública inicial na bolsa londrina, superando a meta inicial, de 600 milhões de libras.

Cinco dias depois, a Fairfield, empresa de petróleo e gás no Mar do Norte controlado pela firma de investimentos em participações Warburg Pincus, desistiu do plano de vender suas ações, por US$ 500 milhões, atribuindo a decisão às condições do mercado - mesmo pedindo um preço com desconto.

Andy Brough, gestor de fundos de renda variável da Schroders no Reino Unido, afirmou que os investidores estavam dispostos a financiar o Vallar porque os próprios administradores apostaram no negócio, além de ter uma boa história para contar sobre as perspectivas de crescimento.

Os valores atraentes dos ativos minerais - que são o alvo do Vallar - sugerem que ele pode fazer uma aquisição várias vezes maior que o dinheiro levantado.

"Quando uma das partes põe 100 milhões de libras de seu próprio dinheiro em uma empresa abrindo o capital pelo mesmo preço que você está entrando, é porque eles têm verdadeiro interesse em fazer dinheiro. Compare isso a outra parte que, já tendo feito seu dinheiro, tenta te vender um monte de ações, é claro que você optará pela primeira", afirmou Brough.

Em outras palavras, os investidores estão esquadrinhando as novas emissões, avaliando-as uma a uma, em vez de ser atraídos por um setor ou outro.

Alguns analistas do setor petrolífero argumentaram que a oferta da Fairfield foi afetada pela inquietação de alguns investidores com os grandes passivos referentes ao futuro fechamento de operações de alguns campos envelhecidos no Mar do Norte e com o plano de negócios agressivo da empresa.

"A Fairfield possui alguns grandes ativos no fim da vida, que são difíceis de abandonar", afirmou o analista Richard Slape, da Canaccord Genuity. "Isso deixará as pessoas um pouco nervosas, já que é difícil calcular quanto custará se livrar deles quando a hora chegar", acrescentou Slape.

O comunicado conciso da Fairfield atribuindo o cancelamento às "condições do mercado" foi recebido com ceticismo por alguns investidores e executivos de banco, para quem a empresa pediu um preço alto demais por suas ações.

Assim como os bancos certamente têm interesse em ganhar quantos negócios de emissão puderem, vendedores inexperientes podem escolher a maior avaliação que receberem.

Se a varejista de internet Ocado conseguir lançar suas ações pelo preço médio da faixa indicativa de sua oferta inicial, o valor da empresa (ações mais dívida líquida) em torno a 1,3 bilhão de libras.

O valor é 50 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) previsto para este ano financeiro. Em comparação, a rede de supermercados Tesco é negociada a 7,6 vezes a sua projeção de lajida.

Os números contrastam com os da gestora de recursos Jupiter, controlada pelo grupo de investimentos em participações TA Associates. Em junho, a Jupiter conseguiu levantar 220 milhões de libras para pagar dívidas, em uma oferta pública inicial. Embora a gestora de recursos tenha vendidos as ações a 165 pence cada - perto do limite inferior, da faixa entre 150 e 210 pence - a relação entre preço e lucro foi de 10,8 vezes o lajida estimado para 2010, dentro da média do setor, de 12 vezes.

"O mercado está bastante seletivo. Negócios que precisam de um pouco mais de convencimento dos investidores aguardam por dias melhores. Mas para os nomes certos, não é difícil conseguir concluir negócios nem que tenham boa negociação", disse Viswas Raghavan, chefe de mercados de capitais internacionais no JPMorgan.

Ainda assim, o Reino Unido mostra-se um terreno de caça particularmente espinhoso para os grupos de investimentos em participações. Os investidores institucionais estão receosos quanto a ofertas iniciais de ações sendo usadas apenas para desalavancar empresas de participações que não conseguiram refinanciar-se no mercado de dívidas.

Em fevereiro, foram adiadas três emissões de empresas controladas por firmas de investimentos em participações no intervalo de uma semana: a empresa de reservas de viagens Travelport; a rede de moda de luxo New Look; e a Merlin Entertainment, operadora do museu Madame Tussauds, da roda-gigante londrina London Eye e de parques de diversões.

As firmas de participações que conseguiram lançar ações sofreram com fracos desempenhos nos mercados. As ações da Gartmore foram afetadas pela saída de um de seus principais administradores de fundos e caíram pela metade desde a estreia em dezembro.

A rival Jupiter, em parte controlada pela TA Associates, se saiu melhor, recuando ligeiramente desde sua oferta pública inicial em junho, enquanto as ações da Promethean World, fabricante de lousas digitais, caíram 16% desde a estreia em março.

Isso mostra claramente que as ofertas públicas iniciais ainda podem ser bem-sucedidas quando o preço é correto, independente de a empresa ainda não ter operações ou ser um negócio já quase desenvolvido.

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