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Bernanke fala e derruba mercados; Bovespa resiste
Valor Econômico - 22/07/2010 Eduardo Campos | Valor
O destaque no pregão da quarta-feira foi a fala do presidente do Federal Reserve (Fed), banco central americano, Ben Bernanke, que deu um parecer pouco otimista sobre a economia americana.
Tal visão cautelosa resultou em instabilidade nas bolsas de valores e aumento na demanda por dólares e títulos da dívida americana.
Por aqui, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) ainda garantiu fechamento em terreno positivo, já o dólar voltou a ganhar do real. O mercado de juros seguiu com dinâmica própria, conforme os agentes faziam as últimas apostas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que na noite de ontem optou por elevar a Selic em ponto 0,5 percentual, para 10,75% ao ano.
Começando pelo mercado externo, as declarações de Bernanke, de que a economia enfrente um período de incerteza sem precedente deram rumos às bolsas americanas.
Depois de operar próximo da estabilidade durante a maior parte do pregão, o Dow Jones encerrou a jornada com queda de 1,07%, aos 10.120 pontos. Já o S & P 500 devolveu 1,28%, para 1.069 pontos, enquanto o Nasdaq se desvalorizou 1,58%, a 2.187 pontos.
O gerente de renda variável da Mapfre Investimentos, Carlos Eduardo Eichhorn, acredita que o ponto principal do discurso de Bernanke referiu-se à situação de emprego dos EUA. Na última semana, o Fed já havia mostrado maior preocupação com a questão, na ata relativa à última reunião de política monetária.
"O principal ponto colocado hoje é que a recuperação dos empregos perdidos durante a crise vai acontecer num ritmo bem lento, e só se tem uma recuperação nos níveis de atividade quando há uma retomada do mercado de trabalho. O discurso de Bernanke anulou o otimismo com balanços melhores que o previsto" comentou Eichhorn.
Já o economista da Modal Asset Management, Ivo Chermont, chamou atenção para as referências feitas por Bernanke em relação ao balanço de ativos do Fed.
"O presidente citou diversas vezes em seu discurso o programa para tentar normalizar o tamanho do balanço do Fed. Todos estão preocupados com o que a instituição pode fazer para injetar mais liquidez na economia, mas o Fed está comentando a melhor forma de ainda deixar o tamanho dos ativos de seu portfólio mais normal", observou.
Para encerrar, Benranke não anunciou novas medidas de estímulos, como chegou a se cogitar na terça-feira, mas voltou a dizer que a autoridade monetária está pronta pra atuar caso necessário.
A Bovespa sentiu o baque das declarações do presidente do BC americano e da queda dos índices em Wall Street, mas não se rendeu completamente.
Apoiado, novamente, nas ações da Vale e da Usiminas, o Ibovespa defendeu leve alta de 0,02%, e encerrou aos 64.476 pontos. O movimento financeiro somou R$ 5,66 bilhões.
Passando para o câmbio, depois de dois dias com dinâmica própria, o dólar comercial voltou a acompanhar a sinalização das bolsas e do câmbio externo. Sinal disso é que o comportamento da taxa foi bastante semelhante à movimentação dos índices americanos. Conforme o humor piorou por lá, as compras ganharam força por aqui.
Ao final da jornada, o dólar comercial apontava alta de 0,56%, a R$ 1,784 na venda. Na máxima, a divisa foi a R$ 1,786. O giro estimado para o interbancário ficou em US$ 3,0 bilhões, pouco abaixo do registrado na terça-feira.
Na roda de "pronto" da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F) o dólar encerrou com alta de 0,61%, negociado a R$ 1,7842. O volume somou US$ 239,25 milhões.
Segundo o gerente da mesa de câmbio do Banco Prosper, Jorge Knauer, o discurso de Bernanke causou mal-estar. E no mercado e câmbio a resposta foi a zeragem de posições vendidas, ou seja, compra de dólar para reduzir exposição à moeda brasileira.
De acordo com Knauer, o presidente do Fed foi claro delineando que a situação da economia americana não é das mais confortáveis. "O juro é zero e a economia segue estagnada", ponderou Knauer, lembrando que a situação fica ainda mais preocupante se levarmos em conta que a inflação também é baixa.
De volta ao mercado local, o especialista chamou atenção ao tamanho das posições vendidas dos investidores estrangeiros.
Considerando os contratos futuros de dólar e o cupom cambial (DDI), a aposta pró-real atingiu US$ 7,24 bilhões no pregão de ontem, maior soma desde 31 de julho de 2008.
No mercado de juros futuros o que importa é o que os agentes vão fazer hoje, depois da decisão do Copom, que optou por elevar a taxa básica em 0,5 ponto, para 10,75% ao ano.
A decisão chancela as apostas do mercado, mas contraria a visão dos economistas, que justificavam a necessidade de uma nova elevação de 0,75 ponto com fatores técnicos, como a piora nas expectativas de inflação para 12 meses.
No comunicado, o BC disse que considerou a evolução da inflação e o comportamento do quadro doméstico e externo para tomar a decisão que foi sem viés e unânime.
Foco agora na ata, que será apresentada na semana vem, detalhando melhor como o BC está encarando a trajetória da inflação e também porque o cenário externo voltou a ganhar peso dentro do balanço de riscos.
Ontem, o mercado seguia mostrando maiores apostas na elevação de 0,5 ponto.
Antes do ajuste final de posições na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em agosto de 2010 registrava alta de 0,07 ponto, a 10,64%. Setembro de 2010 avançava 0,02 ponto, a 10,70%. E janeiro de 2011, o mais líquido do dia, registrava estabilidade a 10,97%.
Entre os longos o ajuste foi de baixa, o contrato para janeiro de 2012 caía 0,04 ponto, a 11,54%. Janeiro de 2013 perdia 0,07 ponto, a 11,81%. E janeiro 2014 devolvia 0,10 ponto, a 11,85%.
Até as 16 horas, foram negociados 1.979.375 contratos, equivalentes a R$ 185,82 bilhões (US$ 104,39 bilhões), queda de 13% sobre o registrado na terça-feira. O vencimento de janeiro de 2011 foi o mais negociado, com 563.940 contratos, equivalentes a R$ 53,79 bilhões (US$ 30,23 bilhões).
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