Um ano muito bom para o varejo
Entrevista: Gustavo Franco


Eletrolar News - no. 64 - julho / 2010

Gustavo H. B. Franco é mestre em economia pela PUC do Rio de Janeiro e Ph.D. (1986) pela Universidade de Harvard. Foi professor e pesquisador da PUC-Rio de 1986 a 1993. No serviço público, de 1993 a 1999, foi secretário adjunto de política econômica do Ministério da Fazenda, diretor de assuntos internacionais e presidente do Banco Central do Brasil. Teve participação central na formulação, operacionalização e administração do Plano Real. Após ano sabático, voltou para a PUC-Rio, em 1999, e um ano depois fundou a Rio Bravo Investimentos, empresa de serviços financeiros, onde hoje tem sua ocupação principal. Participa de diversos conselhos de administração e escreve regularmente em jornais e revistas de circulação nacional. Tem 11 livros publicados e seus escritos são encontrados em sua home page: www.econ.puc-rio.br/gfranco

Grande parte dos especialistas afirma que este é o ano do varejo, impulsionado principalmente pelo aumento do crédito, do emprego e da renda. O consumo exagerado pode levar à falta de produtos e ao aumento da inflação?
Acho que vai ser um ano muito bom para o varejo, principalmente, a respeito das medidas contracionistas do Banco Central, cujos efeitos já se fazem sentir antes mesmo de os juros subirem. Não vejo exagero no consumo. Onde há exagero é no gasto público. Os indícios de superaquecimento que fazem o banco se mover poderiam ser eliminados pela atuação anticíclica da política fiscal. Não há risco relevante de aceleração inflacionária, pois o Banco Central fará o trabalho que o ministro da Fazenda não faz.

Qual deve ser o papel do governo?
O principal papel do governo, neste momento, é o de criar condições para a manutenção e a redução da taxa de juros. É isso o que vai dar profundidade ao mercado de capitais e ao investimento, o que, por sua vez, é o que fará sustentável em níveis altos o crescimento do país.

O senhor acredita em crescimento do PIB entre 5 e 6% para este ano?
Esta é a velocidade do crescimento agora, não acredito que tenhamos desaceleração nos próximos meses, mesmo com a elevação nos juros.

Até que ponto as crises globais podem contribuir para nosso crescimento?
Uma coisa é verificar que o Brasil sofreu menos com a crise de forma relativa a outros países. Outra muito diferente é afirmar que crises internacionais ajudam nosso crescimento, uma proposição inteiramente falsa. Não existe essa correlação, crise é crise, o efeito é negativo.

Em âmbito global, o Brasil exporta muito poucos produtos acabados. O senhor acredita na indústria nacional?
O Brasil exporta produtos em que tem vantagem comparativa e a competitividade é fácil e natural em produtos que usam intensivamente recursos naturais abundantes no país. É o que diz a teoria, é o que ocorre na prática. É claro que acredito na indústria nacional, mas não creio em protecionismo, doença que só nos fez mal ao longo desses últimos anos.

O Brasil é o país mais atrativo dos Brics? Está realmente na mira de investidores?
Relativamente aos Brics, temos vantagens e desvantagens. Dentre estas, a legislação trabalhista, tributária e o custo do capital. Dentre as vantagens, o ambiente empresarial, a segurança jurídica, o ambiente contratual e a democracia. Teríamos muito a ganhar em empreender reformas que atacassem essas nossas fragilidades, que são muito claramente percebidas pelo investidor estrangeiro.

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