O ativo mais escasso do Brasil é o prazo
*Gustavo Pessoa
Entre a urgência de sobreviver e a possibilidade de construir, existe uma riqueza que não se mede apenas em dinheiro.
Em Esaú e Jacó, a República chega à confeitaria de Custódio como uma despesa imprevista. A tabuleta nova está pronta, com o nome Confeitaria do Império, e o comerciante teme que mantê-la lhe custe as vidraças. Mudar para República tampouco o tranquiliza: outra reviravolta poderia obrigá-lo a pagar uma nova pintura. Machado não poupa a avareza do personagem, mas sua inquietação admite uma leitura econômica: como investir sem saber quanto durará o mundo para o qual se está investindo?
Entre uma boa ideia e um investimento bem-sucedido há um intervalo que alguém precisa financiar e atravessar. Costumamos chamar de paciência o que, em parte, depende de reservas, contratos e confiança na continuidade das regras. O prazo, visto assim, é uma construção social antes de ser uma cláusula financeira.
A fundação do Banco da Inglaterra, em 1694, oferece um exemplo pouco romântico. Criado para financiar a guerra contra a França, o banco nasceu num arranjo em que o controle parlamentar das receitas e sua destinação ao pagamento da dívida ajudavam a dar credibilidade aos empréstimos ao governo. A lição que se pode extrair é que uma promessa se torna mais confiável quando há recursos para honrá-la e regras que sobrevivem a quem a fez.
A política, os mercados e o aprendizado
Fernand Braudel insistia na coexistência de tempos distintos na vida social, da brevidade dos acontecimentos à duração mais lenta das estruturas. Essa perspectiva ajuda a pensar um problema econômico: como conciliar o calendário das decisões com a duração de seus efeitos? Um governo pode mudar uma prioridade em uma tarde, mas uma escola não forma uma geração no intervalo de um mandato. A política, os mercados e o aprendizado precisam conviver sem obedecer ao mesmo relógio.
No Brasil, a inflação alta ensinou famílias a correr ao supermercado antes que o salário perdesse valor. Estocar mercadorias era uma forma de se defender. O Plano Real, em 1994, recuperou condições de planejamento que essa rotina havia corroído. Sua importância pode ser compreendida também como a restituição de uma liberdade: escolher quando gastar, em vez de ser empurrado a fazê-lo pela deterioração da moeda. A estabilidade monetária, contudo, não resolve sozinha a organização do tempo econômico.
A memória tampouco acompanha de imediato os indicadores. Em pesquisa com dados americanos, Ulrike Malmendier e Stefan Nagel encontraram uma relação entre a inflação vivida pelas pessoas, suas expectativas e escolhas de financiamento. O resultado não autoriza uma generalização automática para o Brasil, mas recomenda cautela antes de atribuir ao imediatismo o que pode ser aprendizado. Quem foi punido por esperar talvez exija mais do que uma previsão favorável para voltar a fazê-lo.
Desigualdade de horizontes
Também importa saber quem pode suportar a espera. Considere dois empreendedores com projetos equivalentes: um depende do resultado do mês para pagar suas despesas; o outro dispõe de reservas para atravessar um ano difícil. Seria apressado concluir que o segundo é mais visionário. Seu patrimônio lhe concede uma margem de decisão que o primeiro não possui. Há uma desigualdade de horizontes por trás de escolhas que parecem revelar apenas diferenças de temperamento.
O problema reaparece no financiamento. Imagine um imóvel destinado à locação, cujas receitas só se estabilizem depois de alguns anos, financiado por dívida que exige renovação frequente. Sua sobrevivência dependerá da qualidade do ativo e da disposição dos credores em continuar financiando-o. O projeto será de longo prazo, mas seu capital permanecerá provisório. Uma taxa menor aliviaria o custo sem eliminar o risco de não conseguir renovar a dívida.
Amadurecimento vs estagnação
Uma função das finanças é tornar esses tempos compatíveis. Isso exige combinar receitas e obrigações e, quando a estrutura permitir, oferecer ao investidor a possibilidade de transferir sua posição sem obrigar o empreendimento a devolver antecipadamente o capital. Tal possibilidade não assegura uma venda imediata nem a preservação do preço. Tampouco faz de qualquer negócio demorado um bom investimento. O prazo deve permitir que uma hipótese seja testada, não servir de álibi para impedir sua revisão.
Na educação, a exigência é semelhante: avaliar continuamente não significa esperar resultados definitivos a cada trimestre. É preciso distinguir amadurecimento de estagnação, acompanhando o que se constrói sem condená-lo à urgência de produzir efeitos imediatos. O compromisso com o longo prazo exige critérios para continuar e disposição para interromper o que deixou de fazer sentido.
Talvez devêssemos julgar nossas instituições também por esse critério: quanto do futuro elas permitem contratar sem transformar a espera em uma aposta na própria sobrevivência? Custódio queria uma tabuleta que resistisse à próxima mudança de regime. Um país precisa de compromissos que sobrevivam aos seus signatários e de projetos que não recomecem a cada troca de guarda. De que serve anunciar um país do futuro se esperar por ele continuar sendo um privilégio de poucos?
Gustavo Pessoa, economista e professor de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas. GustavoPessoa.com