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A grande aposta contra o Brasil

Artigo Tempo de leitura: 4 minutos

Fabio Cardoso* 

A cada semana, novos indicadores ajudam a dimensionar a expansão das apostas online no Brasil. Recentemente, dados preliminares do Ministério da Fazenda apontam que os brasileiros depositaram mais de R$ 220 bilhões nas casas autorizadas a atuar em âmbito federal ao longo de 2025. Conforme destacou a “Folha de S.Paulo”, cerca de R$ 36,9 bilhões permaneceram com as operadoras como receita — o equivalente a 16,7% do total depositado, percentual que supera o limite legal de 151%. Embora a arrecadação e a fiscalização tributária sejam pautas urgentes em um cenário de fragilidade fiscal, outro fenômeno exige a atenção das autoridades: no Brasil atual, as chamadas bets parecem estar deixando de ser vistas apenas como entretenimento e passando a representar, para parte dos usuários, uma ilusória possibilidade de complementação de renda. 

Quando a aposta deixa de ser lazer

Essa mudança de percepção transparece em levantamentos recentes. Pesquisa2 desenvolvida pelo estúdio Clarice, em parceria com os institutos Estratégia Latina e IDEIA, revela que, entre as mulheres apostadoras, as mães jogam cerca de 1,6 vez mais do que aquelas sem filhos. Para parte desse grupo, a aposta guarda menos relação com o lazer e mais com a tentativa de fazer frente às despesas do mês. A hipótese ganha relevância diante do quadro social: embora indicadores macroeconômicos recentes apresentem resultados favoráveis, uma fatia expressiva da população continua submetida à pressão do endividamento e do alto custo de vida. Diferentemente do otimismo associado ao final dos anos 2000, o período recente é marcado pela persistência da pressão sobre o orçamento das famílias. 

A pressão financeira por trás do jogo

Paralelamente, a fragilidade financeira das famílias permanece elevada.

Endividamento em alta

Segundo dados3 da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mais de 80% dos lares possuíam algum tipo de dívida no período de referência da pesquisa, enquanto a Serasa4 contabilizava cerca de 83 milhões de inadimplentes no período correspondente. São fenômenos distintos, mas ambos ajudam a dimensionar a pressão financeira sobre as famílias.

Por que renegociar a dívida não basta

Nesse cenário, medidas de renegociação de débitos, como o programa Desenrola, podem produzir alívio imediato, mas não necessariamente eliminam as causas estruturais do problema. Como aponta Lauro Gonzalez5, professor da FGV/Eaesp e coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira, iniciativas dessa natureza correm o risco de deixar intocados os mecanismos do superendividamento, sobretudo diante do que ele caracteriza como uma oferta predatória de crédito. 

O que está em jogo além da regulação

É sob esse prisma que o avanço dos jogos precisa ser analisado. Campanhas de conscientização, regulação rigorosa e educação financeira são indispensáveis para reduzir os danos associados ao vício. Contudo, limitar o debate a esses instrumentos pode deixar de lado a vulnerabilidade financeira que torna atraente a promessa do ganho rápido. Quanto maior a pressão sobre o orçamento doméstico, maior pode ser a tentação de recorrer a mecanismos que prometem transformar pequenas quantias em renda, ainda que as probabilidades estejam estruturalmente desfavoráveis ao apostador. 

Um problema que não nasce no vácuo

O crescimento das bets, portanto, não ocorre no vácuo. Ele pode ser alimentado tanto por fatores próprios da indústria (publicidade agressiva, apelo de influenciadores e facilidade de acesso) quanto por um ambiente socioeconômico marcado por incerteza e pressão sobre a renda. Reconhecer que a aposta adquiriu, para parte dos usuários, um significado que ultrapassa o lazer não exime as plataformas de responsabilidade, mas impõe um desafio mais complexo ao poder público: combater a exploração do jogo exige regulação firme, mas também requer enfrentar as condições econômicas que fazem da ilusão do dinheiro fácil uma alternativa de complementação de renda. 


Fabio Cardoso é jornalista, apresentador do Podcast Rio Bravo e autor do livro Histórias do Presente (Best Business, 2025).