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Data

22/10/2021

Tempo de Leitura

5 minutos

Podcast 668 – Ricardo Ferreira: Expedicionários da Saúde: cuidando da vida e preservando a floresta

Podcast 668 – Ricardo Ferreira: Expedicionários da Saúde: cuidando da vida e preservando a floresta

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22/10/2021

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5 minutos

A história dos Expedicionários da Saúde se confunde com a trajetória de seus fundadores, e aqui é possível estabelecer como ponto de referência a imagem de caminhos cruzados. O depoimento de Ricardo Affonso Ferreira, entrevistado do Podcast Rio Bravo edição 668, não deixa qualquer dúvida a esse respeito. “Em 2002, durante uma caminhada de um grupo de médicos, amigos e primos. Nós já fazíamos caminhada havia alguns anos e então fomos para o Pico da Neblina em novembro daquele ano. Na volta, nós paramos em uma aldeia chamada Maturacá, onde nos defrontamos com a realidade da saúde local. Aquele grupo de médicos, na faixa dos 40 e poucos anos, já estava com a vida razoavelmente definida. Então, nós decidimos que ali nós poderíamos ajudar a saúde indígena de várias maneiras. E o que nós pensamos foi a realização de cirurgias em área para evitar remoção desses indígenas de suas terras.”

De 2002 para cá, muita coisa deixou de existir, mas o trabalho dos Expedicionários da Saúde não apenas deu frutos, como se estabeleceu como referência no que se refere à manutenção da saúde dos povos indígenas e da preservação da floresta. Trata-se, aliás, do lema dos Expedicionários: cuidando da saúde, preservando a floresta. E, de fato, à medida que ouvimos as declarações seguras e bem pontuadas de Ricardo Ferreira temos a impressão de que o projeto já nasceu pronto, sem quaisquer dificuldades. Só que a construção de um edifício da magnitude dos Expedicionários exige esforço e disciplina. Nas palavras de Ricardo Affonso Ferreira:

“As dificuldades eram muito maiores do que hoje em dia. Por exemplo, hoje a comunicação é ótima em Pari Cachoeira, onde nós inauguramos o hospital. Nós conseguimos nos comunicar muito bem, o que não acontecia lá atrás, quando começamos. Nas nossas primeiras cirurgias, nós chegamos a usar lanternas para iluminação”.

Este, aliás, é um ponto bastante importante para ser explorado, haja vista que o trabalho dos Expedicionários da Saúde ataca um problema decisivo para a comunidade indígena. A cirurgia de catarata e a cirurgia de hérnia representam um alento para essas vidas que estão tão distantes dos principais centros urbanos. “Nós vimos que algumas das grandes coisas que deveriam ser feitas seriam as cirurgias gerais, porque as hérnias impedem os indígenas de carregar peso e trabalhar na floresta e as cataratas que faziam – e fazem – com que esses indígenas não consigam enxergar”.

De acordo com o fundador dos Expedicionários da Saúde, ainda hoje essas cirurgias estão no topo das intervenções realizadas pela Ong. “São cirurgias razoavelmente simples, mas que mudam várias vidas.”

Assim como no quesito das dificuldades relacionadas à tecnologia, também vale a pena destacar outros empecilhos, que nem sempre são lembrados, que envolvem o diálogo com os povos indígenas. É algo que vai além da linguagem, embora esta seja também importante. “Os indígenas eram muito desconfiados de nós, achando que estávamos apenas prometendo e que nós não íamos fazer nada. Então, no começo foi bem complicado”, explica Ricardo Affonso Ferreira, salientando que a mudança veio com o tempo e com o cumprimento do que havia sido combinado, numa espécie de pacto pela palavra. “Com o indígena é assim, o que você promete você cumpre. Se você não é capaz de cumprir, nem prometa. Porque, do contrário, vão te jogar de lado e não vão aceitar mais nada seu”.

Para além disso, o fundador dos Expedicionários da Saúde explicita como as missões se estruturam. “Nós sempre utilizamos um intérprete. E sempre que possível, nas novas expedições, nós levamos quem já foi submetido a cirurgias nossas e que já teve resultados. E com relação aos costumes e à cultura local, nós sempre nos orientamos via antropólogos – antes de uma expedição, são as palestras desses especialistas que nos contam como essas pessoas vivem, quais são os costumes, para que nós sejamos o mínimo desrespeitoso possível (obviamente, nós sempre vamos ser em algum quesito).”

A propósito dos fundamentos da operação, o Ricardo Affonso Ferreira reafirma os princípios da atuação dos Expedicionários:

“Nós primeiro pedimos anuência às lideranças indígenas; depois, conversamos com a Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), para ver se essas pessoas estão dispostas a nos apoiar também, porque sem apoio não é possível fazer nada. Trabalhamos junto ao governo, mas não recebemos verba do governo”.

A última expedição antes da pandemia contou com a participação de 70 pessoas, incluindo profissionais de TI, de logística, além, claro, de enfermeiros e médicos. Hoje em dia, o time é composto por pediatras, oftalmologistas e ortopedistas. “Se não estou enganado, nessa expedição nós fizemos cerca de 400 cirurgias e de 2500 a 3000 consultas em uma semana”, explica o entrevistado, ressaltando que se trata de trabalho intenso. São quatro meses de preparação para que o espaço em questão não fique muito congestionado.

Mais para o fim do podcast, quando questionado sobre o que aprendeu ao longo de todos esses anos de experiência dos Expedicionários da Saúde, Ricardo Affonso Ferreira destaca a seguinte lição: “Compartilhar. A pessoa que chega na Amazônia, achando que veio do Sul maravilha e que tem todas as respostas, não vai muito longe. Nós temos muito mais o que aprender do que a ensinar quando vai para lá. Compartilhar, dividir, ser solidário. O mesquinho é muito mais malvisto na Amazônia do que aqui”.

A íntegra da entrevista de Ricardo Affonso Ferreira, um dos fundadores dos Expedicionários da Saúde, está disponível a partir do link acima.

Fabio Silvestre Cardoso é jornalista e produtor do Podcast Rio Bravo.

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