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Data

29/10/2021

Tempo de Leitura

5 minutos

Podcast 669 – Sérgio Faria: “Nós, cegos que investimos, existimos”

Podcast 669 – Sérgio Faria: “Nós, cegos que investimos, existimos”

Data

29/10/2021

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5 minutos

Sérgio Faria é cego desde os dois anos de idade.

Num mundo ideal, essa condição não deveria impedi-lo de realizar atividades comuns a todos nós, como estudar, trabalhar e até mesmo fazer investimentos. Ocorre que, infelizmente, uma parte de sua história é um exemplo de como a falta de acessibilidade pode ser um obstáculo para a igualdade de oportunidades. Aos poucos, no entanto, algumas coisas estão mudando. Na entrevista que concede ao Podcast Rio Bravo, sem jamais se colocar no papel de vítima, Sérgio Faria compartilha a sua trajetória pessoal, fala um pouco dos bastidores do grupo “cegos investidores” e afirma: “nós, cegos que investimos, existimos”.

E logo no começo da entrevista Faria explica a maneira como lida com a sua condição. “Nunca me conformei com as dificuldades. Sempre achei formas de driblar esse processo”. Isso fez com que ele buscasse alternativas às dificuldades que apareciam quando das primeiras incursões como investidor. Nas palavras de nosso entrevistado: “Investi no mercado financeiro em 1986, quando muita gente que está nos ouvindo não era sequer nascido e as pessoas olhavam as informações no jornal. E eu descobri que era possível telefonar para as corretoras. Eu fazia isso e anotava. Então, sempre me preocupei em como podia ter mais acessibilidade – em todos os sentidos, para o meu trabalho, para os meus investimentos, para a minha vida pessoal”.

Exatamente por esse motivo, observa Faria, era natural que ele procurasse grupos de pessoas com a mesma condição. Nesse sentido, a luta foi apresentar para as empresas que havia essa demanda. “A maioria não sabia. ‘Como é, cego que investe? Cego que trabalha?'” Hoje em dia, explica ele, isso é mais comum do que no passado. “Eu sempre pensei num ativismo de proposição, porque brigar, dizer que ninguém faz nada acessível, para mim, não é agregador”.

Mas como é que era a vida do investidor cego no passado? Para ser mais preciso, quais eram as principais dificuldades? Sérgio Faria contextualiza: “Era difícil. Porque era preciso contar com a boa vontade de um amigo, de um parente. Inclusive, várias vezes deixei de aplicar na bolsa por causa disso – era preciso ficar alugando as pessoas para que elas me dissessem o que estava acontecendo com as empresas. E às vezes era constrangedor mesmo”.

Sergio Faria relata que essa experiência não é só vivida por ele. “Assim como eu, no grupo que eu faço parte, dos Cegos Investidores, vários fizeram isso. E outros simplesmente pararam porque não tinha esposa, amigo, parente, para ajudar.” A alternativa era esperar que as coisas se tornassem mais acessíveis – o que nem de longe é uma alternativa razoável.

Cegos investidores  

A certa altura da conversa, Sérgio Faria destaca que, a partir do ano de 2007, começou a existir uma melhora sensível nas condições de acessibilidade. No depoimento a seguir, ele revela como: “Os sites melhoraram, sim; e os aplicativos de celular são mais acessíveis do que os sites, porque estes ainda se valem de recursos que dependem dos mouses – e os cegos utilizam leitor de voz, não o mouse”. No entanto, é a postura atitudinal, e não as mudanças tecnológicas, que tem feito a diferença, porque, de acordo com o entrevistado do Podcast Rio Bravo, é a preocupação com o público cego ou de baixa visão que faz com que um grupo possa, por exemplo, compreender o que está apresentado apenas visualmente, num gráfico.

A propósito disso, não faz muito tempo que Sergio Faria começou a fazer parte do grupo Cegos Investidores. Na verdade, o encontro aconteceu por acaso, quando estava num outro fórum da internet, o de Cegos Programadores. Com outros investidores, ele passou a descobrir afinidades e um espaço para conversa. “Conheci gente que investe em crypto, gente que investe em ações, gente que investe só em renda fixa, pois tem receio. Foi ali que eu comecei a ver que nós tínhamos diversos tipos de experiências não apenas ligadas a investimentos, mas, também, com as próprias gestoras e corretoras”.

Quando perguntado se isso significava um estímulo para investir, Sergio Faria responde que sim. E acrescenta: “Tem de tudo: gente que não sabe como começar e até quem faz day trade. De minha parte, eu gosto mais de fundos imobiliários. Mas todos são acolhidos, ressaltando, sempre, que a responsabilidade é de quem vai investir. Nós indicamos qual é o caminho, mas não em qual fundo o investidor deve aplicar”.

Em um momento que as empresas falam das possibilidades de inclusão, quisemos saber de Sérgio Faria quais práticas devem ser adotadas nesse sentido. Nas palavras do nosso convidado, em primeiro lugar, é preciso que a diversidade seja desejada, uma vez que essa abordagem é capaz de criar produtos, ampliar mercados, proporcionando novas oportunidades para as empresas. Em segundo lugar, é fundamental estar atento às especificidades de cada um desses grupos que estão sendo incluídos. Ou seja, agregar as pessoas portadoras de deficiência como funcionários e como clientes – neste ponto, Sergio Faria rechaça a ideia de que não é possível pensar nesse público com potencial de mercado. “Eu sou uma pessoa como qualquer outra. Portanto, quero um produto que me atenda e quero pagar por isso. Agora, se não tenho condições de pagar, não importa se sou pessoa com deficiência ou não. A pessoa com vulnerabilidade econômica precisa de ajuda, independente se é portadora, ou não, de deficiência”.

Por fim, perguntamos a Sergio Faria quais as recomendações para que o mercado financeiro seja mais acessível. Na resposta, ele fala a respeito dos gráficos, cujo conteúdo deve estar disponível num outro formato, de maneira que as pessoas possam extrair elas mesmas as informações; além disso, ele afirma que os sites podem buscar referências de boas práticas de acessibilidade, destacando, aqui, os critérios da WCAG, disponíveis a qualquer um que fizer uma busca rápida no Google.

A entrevista completa de Sergio Faria ao Podcast Rio Bravo está disponível a partir do link acima.

Fabio Silvestre Cardoso é jornalista e produtor do Podcast Rio Bravo.

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