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Data

05/11/2021

Tempo de Leitura

5 minutos

Podcast 670 – Clélia Iruzun, Fabio Martino e Alexandre Dias – Uma homenagem a Nelson Freire

Podcast 670 – Clélia Iruzun, Fabio Martino e Alexandre Dias – Uma homenagem a Nelson Freire

Data

05/11/2021

Tempo de Leitura

5 minutos

Semanalmente, nosso objetivo é levar aos nossos ouvintes uma conversa inteligente sobre economia, negócios, cultura e ideias. Para tanto, nós dedicamos toda a nossa atenção para um entrevistado.

Nesta edição, no entanto, nós vamos mudar um pouco essa estrutura. O motivo não é banal; antes, tem a ver com uma homenagem. Na última segunda-feira, 1/11, o pianista Nelson Freire faleceu. Sua obra tem luz própria e, ao longo dos últimos dias, muito já se escreveu, no Brasil e no exterior, acerca desse gigante no piano e da música de concerto.

Neste episódio do Podcast Rio Bravo, nós fomos ouvir três entrevistados que tiveram oportunidade de conviver com Nelson Freire e compartilham conosco não apenas as suas impressões, mas histórias singulares daquele que foi um gênio brasileiro no piano.

Pela ordem, falam conosco a pianista Clélia Iruzun, que teve a sua história como musicista marcada pela influência de Nelson Freire; o também pianista Fabio Martino, que fala dos encontros que teve com Nelson Freire ao longo dos anos; e, por fim, Alexandre Dias, pesquisador da obra de Nelson Freire e criador do Instituto Piano Brasileiro.

Ao recuperar algumas de suas recordações, Clélia Iruzun destaca a forma leve como aconteceu o encontro com Nelson Freire. “Eu estudo piano desde muito jovem e por volta dos meus 14 anos, eu fui levada à casa do Nelson, que na época morava na Barra da Tijuca, para tocar para ele. Me lembro direitinho da sala da casa dele, onde tinha um piano de cauda. Ele me perguntou o que eu queria tocar. Toquei algumas obras de Chopin, de Mozart. Nelson me ouviu atentamente e, apesar de estar nervosa, ele foi muito amável e gentil. Imediatamente, ele me deu alguns conselhos, sem arrasar com o meu trabalho. Eu já saí dali iluminada”.

A relação de Clélia com Nelson Freire não pararia nesse encontro. O pianista se tornou presença marcante na trajetória profissional da musicista, de modo que Clélia ressalta ao menos uma passagem decisiva, conforme o trecho a seguir: “Aos 15 anos, eu comecei a pensar que talvez a música fosse a minha carreira. Na época, eu me inscrevi para uma bolsa de estudos do DAAD na Alemanha. Mas era um processo demorado, que levava um ano para ser concluído. Nesse ínterim, Nelson esteve em Londres e, conversando com Maria Curcio, uma professora famosa, ele mencionou meu nome”. O resultado da conversa mudou a história de Clélia Iruzun, que não somente foi aceita pela professora Maria Curcio, como também conseguiu uma bolsa de estudos.

Ao destacar o legado de Nelson Freire, Clélia Iruzun observação bastante original: “Ele nunca se colocou acima da música, mas como um meio de transmitir a obra dos grandes compositores. Por isso, ele tinha uma comunicação instantânea com um público. E ele me ensinou isso”.

De sua parte, o pianista Fabio Martino também guarda uma memória afetiva bastante rica dos encontros que teve com Nelson Freire ao longo dos anos. E o mais interessante aqui é observar como essa relação se desenvolveu. Martino revela desse primeiro encontro: “Eu tinha acabado de voltar da Alemanha e havia ganhado o concurso de jovens solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira e o concerto de premiação foi num domingo. E o Nelson Freire foi ao concerto. Foi o meu primeiro contato com ele, que foi conversar comigo. Ele disse que tinha adorado a apresentação.”

Ao falar de sua relação com Nelson Freire, Fabio Martino faz uma observação singular: “Ele era uma pessoa muito reservada, principalmente com a imprensa. O que eu senti era que, quando o Nelson gostava da pessoa, ele se abria mais, tinha um carinho muito grande”. E assim o segundo encontro de Nelson Freire com Fabio Martino foi marcado por um convite: “Eu estava tocando com a Osesp o Concerto n.5, de Villa Lobos. Ele achou muito bacana que eu estava fazendo esse repertório, que ele já conhecia. E me convidou para ir até a casa dele quando eu estivesse no Rio de Janeiro”. Desse novo encontro, Martino recorda do café e de mostrado o seu novo CD naquela ocasião, que contava com a peça Tico-Tico no Fubá. “Nelson disse que adorava o jeito que tocava, mas que dava muito trabalho e não queria fazer. – Você toca o Tico-Tico, ele me disse”.

Para o Podcast Rio Bravo, Fabio Martino afirma que a última vez que encontrou Nelson Freire foi numa apresentação em Campinas. “Ele tocou o concerto Imperador, de Beethoven, que é uma peça de que eu gosto muito. Ouvir o Nelson Freire se apresentar com esse concerto foi muito bonito para mim porque me remeteu a vários momentos positivos da minha vida e da minha carreira”.

Sobre o legado de Nelson Freire, Fabio Martino afirma: “Ele foi um gigante da música, um músico dotado de um carisma excepcional, realmente contagiante”.

Alexandre Dias é o criador do Instituto Piano Brasileiro (IPB). E a trajetória deste instituto tem tudo a ver com Nelson Freire, que foi um apoiador de primeira hora dessa iniciativa. Nas palavras de nosso entrevistado: “Ele apadrinhou o IPB. Primeiro, porque aceitou conceder uma longa entrevista ao instituto em 2015, na qual nós conversamos em detalhe sobre o início da carreira dele, a admiração dele pela pianista Guiomar Novaes; ele me mostrou o caderninho de anotações com a professora Lucia Branco, que ele guardou. E em 2019, ele aceitou dar um recital em Brasília, justamente em favor do Instituto Piano Brasileiro. E foi um sucesso porque fazia muito tempo que ele não tocava em Brasília”. 

Em outro momento da entrevista, Alexandre Dias, um pesquisador da obra de Nelson Freire, fala da técnica de Freire ao piano: “Ele tinha uma leitura à primeira vista fenomenal. Nelson podia colocar a partitura na frente e já tocar perfeitamente – já no andamento correto, com todas as nuances interpretativas e articulações. Ele podia, portanto, aprender músicas com muita facilidade.”

Alexandre Dias conta ter feito uma contagem, com a ajuda de Nelson Freire, e chegou ao número de 51 obras tocadas para o público. “É muita coisa, considerando que uma peça para piano e orquestra pode ter até 40 minutos”.

A propósito do legado de Nelson Freire, Alexandre Dias comenta: “Ele vai sobreviver mais a longo prazo graças às suas gravações, que, para ouvidos sensíveis, basta uma fração de segundos para ser tocado ou impactado pela música dele. Ele faz parte da história brasileira, tendo sido um prodígio tão generoso que compartilhou conosco a sua arte”.

A íntegra do podcast “Uma homenagem a Nelson Freire” pode ser acessada a partir do link acima.

Fabio Cardoso é jornalista e produtor do Podcast Rio Bravo

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